Por Reinaldo Glioche
É curioso perceber como diversos elementos convergem de uma maneira muito própria em “Oh, Canadá”, mais recente filme de Paul Schrader. O mais notável é a nova colaboração com Richard Gere, a quem dirigiu em seu filme mais famoso como diretor e que catapultou Gere ao estrelato. Essa reunião 40 anos depois de “Gigolô Americano” acontece sobre as bases de Russell Banks, escritor que Schrader já havia adaptado em “Temporada de Caça” (1997).
Gere dá vida a Leonard Fife, um documentarista de prestígio que, em seu leite de morte, concorda em falar sobre seus primeiros anos no Canadá para um casal de cineastas que foram seus alunos. A experiência é acompanhada de perto por Emma (Uma Thurman), esposa de Leo há 30 anos e que também fora sua aluna. A experiência se mostra desestabilizadora para todos, já que Leo se põe a fazer uma confissão, em suas próprias palavras, que leva esse encontro filmado para um destino incerto.
Leo é um homem de muitos arrependimentos e a narrativa vai se fragmentando para tentar dar conta deles, mas também dos conflitos que emergiram de seus sonhos e desejos e que foram, junto aos sonhos e desejos, ficando pelo caminho. O promissor Jacob Elordi dá vida a Leo na juventude, mas as vivências e relatos vão se confundindo, também, com as do filho abandonado pelo documentarista.
Pouco interessa a obra do protagonista, que se entende como um covarde, em parte por fugir da boa vida desenhada para ele, e pelos espólios que essa fuga gerou, algo que a deserção do exército em meio à Guerra do Vietnã reforçava. Não é essa a percepção que as pessoas que o cercam tem dele, mas pouco importa a Leo o que essas pessoas acham e com o rancor característico de quem perdera uma última batalha para o câncer, ele manifesta esse desdém – por si e pelos outros.
É um personagem realmente muito interessante, mas que Schrader não consegue dimensionar como, imaginamos, gostaria. O cineasta perde-se nas memórias do protagonistas como se fossem suas, uma metalinguagem (involuntária?) que, de um lado respalda essa conotação melancólica da velhice e das renúncias em prol de certa relevância artística, mas do outro afasta a audiência do potencial dramático de “Oh, Canadá” enquanto experiência cinematográfica.
No limiar, essa dicotomia apresenta ao público um dilema muito parecido com o que o protagonista enfrenta – no início e no fim – em sua jornada no Canadá. É uma beleza que Schrader extrai da imperfeição de seu filme.
