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"O Surfista" coloca Nicolas Cage em ponto de ruptura

Por Reinaldo Glioche

Da mesma paleta que filmes como “O Sacrifício” (2006), “Vício Frenético ( 2009),”A Cor que Caiu do Espaço” (2019) e “Mandy: Sede de Vingança” (2018), “O Surfista” traz Nicolas Cage no modo pirado em uma trama que funde elementos do filme de gangster e drama psicológico. O longa de Lorcan Finnegan, exibido pela primeira vez no Festival de Cannes em 2024, promove uma reflexão lisérgica sobre masculinidades, memória e como estes moldam a construção da identidade.

Finnegan tem um repertório de filmes esquisitos como “Viveiro” (2019) e “Nocebo” (2022) e um gosto por obras que se resolvem como quebra-cabeças. “O Surfista”, porém, tem mais ambição do que seus filmes anteriores e se delicia com sua vocação cult.

Na trama, Cage vive um homem que retorna à praia idílica de sua infância para surfar com seu filho, mas quando é humilhado por um grupo de locais, se vê arrastado para um conflito que continua escalando e o empurra ao seu ponto de ruptura. Julian McMahon, da série “Nip/Tuck” reaparece aqui como o carismático e enigmático líder do grupo que oscila entre o gangsterismo e uma seita.

O filme articula-se em torno de uma filosofia territorial brutal expressa pelos locais: “não vive aqui, não surfa aqui”. Finnegan, já estabelecido como um cineasta que navega habilmente entre o realismo e o surreal, encontra em Nicolas Cage o intérprete ideal para esta exploração psicológica, já que o ator mergulha sem paraquedas na psique de um homem em rito fragmentário.

Um acerto descomunal aqui foi a opção de filmar em apenas uma locação. Filmado em Yallingup, no oeste da Austrália, o filme captura com maestria o ambiente natural, as vistas deslumbrantes e o calor cintilante do verão costeiro australiano. Ao mesmo tempo, um espaço semiurbano confinado — como um estacionamento à beira-mar — parece desolador e inóspito, com seus únicos “serviços” sendo uma barraca de café cara, um telefone público antigo e um banheiro decadente.

Como cenário cinematográfico, ele é tanto um espetáculo de horizontes abertos quanto sufocantemente claustrofóbico — o mecanismo perfeito para o terror psicológico de “O Surfista”. Com seu ambiente opressivo, luz superexposta em tons alaranjados e amarelados, e uma espiral suada rumo à loucura, o longa se assevera um exercício estético convidativo, mas ainda mais impactante enquanto elaboração dramatúrgica.

Apesar de seus bons predicados, “O Surfista” sofre em seu terço final com alguns solavancos narrativos. Ainda assim, uma brisa que vale a pena.

Foto: Divulgação

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