Por Reinaldo Glioche
Como “Asteroid City” (2023), o mais novo filme de Wes Anderson foi lançado em Cannes. Existem algumas razões para esse apetite do festival pelo cineasta norte-americano para além de sua excentricidade característica. O primeiro deles é a constelação de estrelas que o cineasta reúne para seus filmes e em “O Esquema Fenício” não é diferente. Outro motivo é o domínio estético de Anderson, algo que festivais de cinema com alguma pretensão artística têm por hábito valorizar. A terceira e decisiva razão talvez seja mais pueril e remete à falta de cinismo em voga na filmografia recente do diretor.
Anderson convoca colaboradores contumazes como Bill Murray, Scarlett Johansson, F. Murray Abraham e outros que adentraram à horda andersoniana mais recentemente como Tom Hanks, Bryan Cranston, Benicio Del Toro e Benedict Cumberbatch para entregar algo muito próximo de um filme de ação e espionagem, mas com a embalagem típica do cineasta com cores cuidadosamente sobrepostas, enquadramentos milimetricamente planejados, personagens que se movem em stop-motion e um humor exquisitè.
Benicio Del Toro é Zsa-zsa Korda, um magnata que desafia corporações e governos de todo o planeta com esquemas de evasão, dissimulação e golpes das mais diferentes matizes. Seu torpor moral contrasta com o fervor religioso de sua filha Liesl (a ótima Mia Threapleton), uma noviça de quem ele tenta se aproximar, em parte por certa culpa e em parte como mais um de seus elaborados esquemas. É dessa dialética confusa – mesmo para os personagens -, que “O Esquema Fenício” se alimenta.
À medida que as tentativas de assassinato se acumulam e um requintado plano de sabotagem engendrado pelo governo dos EUA e nações parceiras ganha forma, Korda e sua filha se lançam numa road trip – a bordo de um inseguro avião – para tentar salvar o mais precioso dos esquemas já montados pelo magnata e que dá nome ao filme.
O grande barato do filme passa a ser o empilhamento de participações especiais. De Willem Dafoe a Charlotte Gainsburg, passando por Jeffrey Wright, Matthieu Almaric, Rupert Friend, entre outros. Uma novidade no panetão andersoniano, porém, rouba a cena. Trata-se de Michael Cera, que dá vida a um introvertido tutor de Korda que acompanha pai e filha na empreitada. Cera compreende a gramática visual e discursiva de Anderson como poucos e eleva todas as cenas em que aparece. Algo muito bem-vindo para uma carreira que se encontra em decadência.
“O Esquema Fenício” acaba tropeçando na resolução intempestiva e reforçando a ideia de que o cineasta anda se repetindo e, pior, preso à persona – e universo- criados. Todavia, o domínio estético parece ainda mais apurado aqui; um filme que se propõe mais ambicioso na forma e equilibra um elenco numeroso enquanto (tenta) dar conta de uma história estranha ao cânone do cineasta.
