Por Reinaldo Glioche
Superficialmente, “Me Companheiro Fiel” lembra “Marley & Eu, já que trata do impacto emocional que um cão provoca em seu dono, ou tutor, como a correção política prega. Mas um olhar mais detido revela que esta obra, adaptada do romance de Sigrid Nunez, é menos sobre a dinâmica da relação entre cão e homem e mais sobre as circunstâncias do luto, da solidão e como elas nos ressignificam. Obras sobre esses estigmas costumam abordar a depressão em um viés fatalista ou refugiar-se em inverossimilhanças.
É por propor algo menos assertivo e mais intuitivo, sem afastar a tristeza, mas olhando para ela por meio de uma ótica terapêutica, que “Meu Companheiro Fiel” se distingue. Naomi Watts, em seu melhor papel em anos, vive Iris, uma escritora abalada com o suicídio do amigo, vivido em tenros flashbacks por Bill Murray, e que dele recebe a missão de cuidar do dogue alemão Apollo. Iris é uma ‘cat person’ e reluta bastante em adotar o cão. Piora, ainda, o fato de que o prédio em que mora em Nova York veta a presença de pets.
Ainda assim, sem entender exatamente o porquê, Iris vai ficando com Apollo e vê florescer uma relação nascida do luto. O cão está profundamente depressivo desde a partida de Walter e talvez seja esse o aspecto que envolve a escritora, também ela irresoluta com o suicídio do amigo, quem ela julgava tão próxima e por quem fora “abandonada”. O suicídio, afinal, pode ser um ato de violência afetiva muito grande e Iris, por meio da relação trôpega que vai construindo com Apollo, vai se curando de chagas que sequer conseguia nomear.
O elenco do filme é muito gabaritado. Há ótimas atrizes em participações pequenas, como Carla Gugino, Constance Wu, Norma Dumezweni, Ann Dowd e Chloe Xhauflaire, além de Tom McCarthy, ator e cineasta responsável entre outros filmes pelo oscarizado “Spotlight – Segredos Revelados”. São elementos que tornam o filme ainda mais charmoso.
A ideia de encontros inusitados como boia de salvação para quem está afundando, e é incapaz de pedir ajuda, é algo que o cinema raramente trabalha tão bem como os diretores Scott McGehee e David Siegel o fazem em “Meu Companheiro Fiel”.
