Por Reinaldo Glioche
Menor em escala do que seus dois primeiros filmes, “Isso Ainda Está de Pé?” não é menos ambicioso do que “Nasce uma Estrela” (2018) ou “Maestro” (2022), mas demonstra não apenas a versatilidade dramática e estética de Bradley Cooper, mas aponta para uma ambição fluente e transversal.
“Isso Ainda Está de Pé?” é, à primeira vista, um filme sobre divórcio. Um casal junto há quase 30 anos que percebe que a rotina venceu, que o desgaste virou senhor de suas interações, quase automáticas. Mas não é apenas um filme sobre divórcio, um tema em si já bastante rico. É sobre encontrar a si mesmo depois de desencontrar o outro. É sobre amadurecer em questões que pareciam pacificadas. É sobre aprender a ouvir. É sobre fazer comédia. É sobre afeto.
Há muito afeto na obra de Cooper. Alex (Will Arnett) cai de paraquedas no mundo do standup enquanto tenta navegar nas turbulentas águas do divórcio. As experimentações em noites de “microfone aberto” vão se intensificando e contribuindo para que Alex vá, meio que desapercebidamente, digerindo tudo pelo que está passando. A grosso modo, ele encontrou uma forma de terapia.
Já Tess, flerta com o retorno ao mundo do vôlei, agora como treinadora. O esporte ocupou grande parte de sua vida e claramente essa ausência a definia mais, dentro do contexto da relação com Alex, do que ela gostaria. É um respiro bem-vindo. Um começar de novo necessário.
A câmara de Cooper é curiosa por esses personagens. É generosa também. Ela torce por eles. O afeto não está apenas ali, na camaradagem dos comediantes, no tateamento de Alex e Tess de suas novas circunstâncias, no cuidado com os filhos… Está também na maneira como Cooper, que coescreveu o filme com Arnett, enxerga os personagens.

Uma das boas sacadas de “Isso Ainda Está de Pé?” é o olhar que dispensa para as engrenagens da comédia – uma arte frequentemente menosprezada. A maneira como comediantes olham para si e para suas angústias de maneira a criar algo capaz de refletir, curar, agregar.
A maturidade emocional que o longa tangencia não está apenas no escopo da relação dos protagonistas, ou mesmo do casal de amigos vividos por Cooper e Andra Day, mas no íntimo de cada personagem. O filme é sobre aprender a se ouvir e, no processo, enxergar melhor o outro. Explorar alternativas e ser verdadeiro com esse processo. A comédia, em “Isso Ainda Está de Pé?”, surge como um catalisador.
Trata-se de uma organização narrativa muito sofisticada e cativante. Cooper encontra planos e ângulos, com o auxílio providencial do diretor de fotografia Matthew Libatique, que tornam tudo mais pulsante, tenro e íntimo. Fotografia e trilha sonora reforçam essa atmosfera de cumplicidade mesmo na dor.
Há, claro, os dois protagonistas em atuações inspiradas. Arnett, naquele que é seu melhor papel no cinema, aborda Alex com coragem e desilusão, mas sem prescindir de um charme deslocado que o reveste de familiaridade com quem quer que já tenha se sentido perdido na vida. Laura Dern, de credenciais robustas, devora toda a cena em que está. Ora com silêncios cortantes e olhares desorientados, ora com graciosidade e incumbência.
“Isso Ainda Está de Pé?” é daquela estirpe de pequenos grandes filmes. Um triunfo na filmografia de todos os envolvidos que aquece o coração de quem assiste e dialoga com a iminência de ser adulto.