Por Reinaldo Glioche
Martin Scorsese com “Silêncio”, Lars Von Trier com “AntiCristo” e Angelina Jolia e Brad Pitt com “À Beira-Mar” são exemplos de artistas que promovem uma espécie de terapia pública; que enxergam na arte um força redentora e purificadora. É mais ou menos essa a proposta de The Weeknd ou Abel Tesfaye, seu nome de batismo, com “Hurry Up Tomorrow – Além dos Holofotes”.
Talvez falte, entretanto, a Abel uma maior compreensão da mídia em que está se manifestando. O filme faz parte de um trabalho conceitual mais amplo, que envolve o álbum homônimo, o sexto de estúdio, de The Weekend, que surge na tela como uma versão de si mesmo. Vaidoso, frágil, irritante, deslumbrado, arrogante e talentoso. O The Weeknd do cinema é uma presença cansativa e ensimesmada por si mesmo, o que pode ser uma descalibragem em meio à orgia metalinguística pretendida.
O filme abre com o cantor fazendo exercícios vocais para se apresentar em uma arena lotada. Fora esse detalhe, a preparação – e mesmo a caminhada rumo ao palco – lembram um lutador prestes a entrar no ringue. A comparação ganha força conforme o filme avança, já que o artista se encontra em litígio consigo mesmo. Sufocado pela própria fama, esse The Weeknd busca pertencimento e sentido fora da pele de “um ser sobrenatural”, como o classifica em certo momento seu amigo e empresário vivido por Barry Keoghan.
Em uma relação tóxica consigo mesmo, The Weeknd encontra um respiro em Anima (Jenna Ortega), uma fã que consegue acesso a ele de maneira meio miraculosa – o que sugere tudo que vemos se tratar de um delírio (talvez induzido pelo consumo de drogas) – que aos poucos vai se mostrando obcecada e maníaca. O que liga os dois é a intimidade cheia de dor e solidão da música composta por Abel em meio a sintetizadores e beats cuidadosamente elaborados.

Conceitualmente “Hurry Up Tomorrow” tem seu apelo e – vá lá – impacto, mas o filme é um descarrilamento completo. Para começar, The Weeknd é péssimo ator – há até uma piada sobre isso no filme, Jenna Ortega foi mal escalada e o roteiro se perde nos devaneios do protagonista. Para piorar, o cineasta, coroteirista e montador Trey Edward Shults não consegue costurar os conflitos dos personagens e sucumbe ao ridículo com frequência embaraçosa. Sua câmera, apaixonada por Abel, é esquizofrênica e alterna entre longos e injustificados takes e pirotecnias espalhafatosas.
A música é o único elemento que funciona a contento no filme, o que reforça a sensação de que essa história, pelo menos como organizada por The Weeknd, deveria ter ficado restrita ao álbum.