Redação Culturize-se
Danny e Michael Philippou estrearam com “Fale Comigo” em 2022 e rapidamente ganharam notoriedade por sua combinação de horror sobrenatural, trauma juvenil e violência gráfica. O sucesso do filme, que arrecadou US$ 92 milhões para um orçamento de US$ 4,5 milhões, garantiu à dupla um lugar entre os nomes promissores do gênero. No entanto, apesar da popularidade, muitos críticos consideraram o longa derivativo e formulaico, uma colagem de ideias de sucessos anteriores que se amparava em um momento único de violência chocante para mascarar uma narrativa mediana. Dois anos depois, os irmãos voltam com “Faça ela Voltar”, uma resposta direta às críticas de seu primeiro trabalho – mais cruel, mais violento e, ao menos na superfície, mais ambicioso.
Neste novo filme, Sally Hawkins interpreta Laura, uma ex-conselheira infantil em luto pela morte da filha. Seu papel evoca sua Poppy de “Happy-Go-Lucky“, mas o otimismo ensolarado de outrora dá lugar a um tipo de afeto perturbador, quase fanático, direcionado à adolescente Piper (Sora Wong), uma jovem com deficiência visual, e seu meio-irmão Andy (Billy Barratt), recém-chegados à sua casa após a morte trágica do pai. Enquanto Andy percebe rapidamente que há algo errado com Laura – e com Oliver, o silencioso e ameaçador “sobrinho” da nova tutora -, Piper se deixa levar por seu carisma e acolhimento maternal. Mas não demora para que sinais de comportamento obscuro comecem a se acumular: um círculo mágico pintado ao redor da casa, uma mecha de cabelo retirada do cadáver do pai das crianças, fitas VHS com rituais satânicos. Tudo sugere que Laura está envolvida em um plano macabro de ressuscitar sua filha, custe o que custar.

“Faça Ela Voltar” compartilha temas com “Fale Comigo” – luto, possessão, a fragilidade da infância -, mas se afasta do estilo mais pop e ágil da estreia. Aqui, a construção do medo é mais opaca, impressionista, feita de cenas nebulosas e ambientes visualmente perturbadores: espelhos embaçados, chuvas torrenciais, imagens distorcidas de fitas antigas. Os Philippou criam um clima de desorientação que reflete tanto a deficiência visual de Piper quanto a lógica difusa do enredo. Mas o que em princípio poderia ser elogiado como ambiguidade ou terror atmosférico logo se revela como um excesso de respostas pouco convincentes – incluindo a absurda fita ritualística com legendas explicativas, que tira o espectador da imersão e beira a paródia involuntária.
Se “Faça Ela Voltar” é mais corajoso em sua abordagem à violência – especialmente contra crianças -, essa ousadia se torna questionável pela insistência em uma crueldade que não oferece nenhuma catarse. “Hereditário” e outros filmes já romperam com o tabu da violência infantil, mas sempre a serviço de uma narrativa maior. Aqui, o sofrimento é tão constante e gratuito que, ao final, o espectador se sente menos impactado do que exausto. A performance de Hawkins, complexa e cheia de nuances, não basta para equilibrar o desconforto contínuo que o filme impõe. O vínculo entre Andy e Piper é comovente e verossímil, mas também é soterrado por um roteiro que prefere o choque à profundidade.

Ao tentar provar que são capazes de criar um horror “de verdade”, os Philippou entregam um filme que confunde intensidade com substância. “Faça Ela Voltar” tem momentos visualmente poderosos e boas atuações, mas se perde em seu desejo de ser perturbador a todo custo, sacrificando coerência, emoção e, paradoxalmente, o próprio medo que tenta evocar.