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Entre a memória e a fuga, Trier filma o cinema como promessa imperfeita em "Valor Sentimental"

Por Reinaldo Glioche

Em “Valor Sentimental”, Joachim Trier realiza talvez seu filme mais maduro e rigoroso ao transformar o constrangimento em gramática, o silêncio em ação e o cinema em uma promessa que já não pode se dar ao luxo de parecer redenção. Depois do êxito crítico de “A Pior Pessoa do Mundo”, o diretor norueguês volta o olhar para dentro; não no sentido intimista banal, mas no gesto mais arriscado de todos: encarar a família como um sistema de feridas que aprenderam a funcionar. Aqui, a arte não cura; ela organiza o caos apenas o suficiente para que seja possível continuar vivendo.

O centro gravitacional do filme é Gustav Borg, cineasta interpretado com precisão desconcertante por Stellan Skarsgård. Diretor renomado, hoje em declínio, Gustav retorna à vida das filhas após a morte da ex-mulher carregando aquilo que sempre soube oferecer: um projeto, um roteiro, um filme. Seu erro — e Trier é cuidadoso ao nunca tratá-lo como vilão — é confundir criação com reparação, gesto artístico com pedido de desculpas.

Fotos: Divulgação

Nora, vivida por Renate Reinsve em mais uma atuação de notável instabilidade emocional, é o contraponto vivo dessa ilusão. Atriz consagrada de teatro, ela carrega um pânico de palco que funciona menos como traço psicológico e mais como sintoma físico de um abandono nunca elaborado. Trier escreve Nora como alguém que domina a linguagem, mas perdeu a confiança no próprio corpo. O ressentimento não se converte em discurso; ele se manifesta em travamentos, fugas, explosões pontuais e silêncios que dizem mais do que qualquer confronto direto. Reinsve sustenta essa contradição com um domínio raro do tempo interno da cena: seu riso é sempre defesa, nunca celebração.

“Valor Sentimental” mostra quase tudo, mas nos obriga a pensar continuamente no que não está sendo dito. Cada encontro entre Gustav e Nora é um campo minado de pausas, frases educadas demais, tentativas de normalidade que fracassam pelo excesso de história acumulada. O tempo, aqui, não é algo a ser recuperado. Como o próprio filme sugere, ele apenas se estende, aprofunda fissuras, amplia trincas — como a que aparece na velha casa da família logo no início, metáfora clara de uma estrutura que segue de pé apesar do desgaste invisível.

Essa casa, aliás, é um dos grandes achados do filme. Filmada pelo diretor de fotografia, Kasper Tuxen, com uma atenção tátil aos materiais, à luz e à geometria dos espaços, ela funciona como arquivo emocional. Madeira, corredores, portas e cantos não são apenas cenários, mas testemunhas silenciosas de conflitos antigos. Trier entende a arquitetura como dramaturgia: Gustav ocupa o centro dos enquadramentos, domina o espaço como sempre dominou as conversas; as filhas se protegem nas margens, nos limites do plano, como se o próprio enquadramento já fosse um embate de poder.

Agnes, a filha mais nova, interpretada com delicadeza contida por Inga Ibsdotter Lilleaas, é frequentemente lida como o polo “estável” da narrativa, mas Trier evita qualquer simplificação moral. Quando criança, Agnes atuou em um filme do pai e, por um breve período, recebeu uma atenção que jamais voltou. Para ela, a arte é um espaço ambíguo: foi ali que foi usada, mas também ali que foi vista. Essa ambiguidade ganha contornos perturbadores quando Gustav decide envolver o neto em seu novo projeto sem consultar a mãe, repetindo padrões com a naturalidade de quem chama trauma de “processo criativo”.

A entrada de Rachel Kemp, estrela americana vivida com graciosidade e agudeza por Elle Fanning, adiciona uma camada fundamental ao filme. Estrangeira àquele ecossistema afetivo, Rachel funciona como uma amostra de que Gustav sabe ser empático, desde que o vínculo não exija responsabilidade emocional. O cuidado que Gustav dedica a Rachel, contrastado com sua incapacidade de escutar as próprias filhas, revela que, para ele, o amor sempre foi mais fácil quando mediado por personagens.

Formalmente, “Valor Sentimental” impressiona pela contenção. O melodrama é evitado em prol de uma tristeza elegante, de uma dilaceração asséptica. A montagem privilegia a permanência desconfortável em vez do impacto fácil, permitindo que silêncios se estendam até se tornarem respostas. O humor — fino, muitas vezes cruel — não alivia a dor, mas a aprofunda. Trier compreende que, nas relações familiares, a violência se manifesta em uma frase bem articulada, na gentileza deslocada, e nas ausências eloquentes.

O desfecho, longe de oferecer catarse ou redenção plena, reorganiza os afetos sem resolvê-los. É um final de reconhecimento, não de cura. “Valor Sentimental” entende que a arte pode contribuir, mas jamais redimir plenamente. É um cinema que aceita seus limites e, justamente por isso, alcança uma verdade profunda e duradoura.

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