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Cinismo avaliza provocações ensejadas por Ari Aster em "Eddington"

Por Reinaldo Glioche

Ari Aster rapidamente se tornou um cineasta objeto de culto; muito em virtude de seus dois primeiros longas – as obras de terror “Hereditário” (2018) e “Midsommar” (2019) -, mas sua base de fãs anda ressentida com seu cinema. Isso porque o realizador demonstra menos interesse pelo horror e mais devoção às suas iconografias. Daí a recepção mediana ao nonsense de “Beau Tem Medo” (2023) e a esse “Eddington” (2025), que a crítica parece indisposta a julgá-lo por aquilo que ele de fato é: uma provocação cínica a respeito dos tempos de histeria que vivemos.

“Eddington” se passa na cidadezinha que dá título ao filme no auge da pandemia de Covid, que serve de pano de fundo para as tensões sociais desencadeadas pelas políticas de saúde pública estabelecidas, mas também por manifestações como Antifa e Black Lives Matter que ganharam capilaridade na esteira de atos de violência policial nos EUA naquele período; o que ajudou a polarizar um país que no fim daquele ano escolheria entre Donald Trump e Joe Biden.

Os eleitores de Eddington também têm uma escolha a fazer. Entre o atual prefeito Ted Garcia (Pedro Pascal), latino e obediente aos protocolos de saúde pública, ou o xerife Joe Cross (Joaquin Phoenix), um tipo embrutecido que se ressente do cerceamento de direitos suscitado pelo combate à Covid. Esse é o ponto de partida para uma série de eventos que culminam no mais completo e absoluto caos.

Essa escalada se dá em virtude de intolerância, desinformação, racismo, fanatismo e histeria. Todos elementos que compõem a fauna metafórica, que se arrisca literal, de Aster, que filma tudo como uma grande e generalizada crise de ansiedade. Ele não necessariamente enseja reflexões – e está aí uma das críticas pertinentes, embora desarrazoada, ao filme. Seu interesse está em pulverizar convicções e afrontar sua audiência, esfregando-lhe na cara um status quo perdulário e nocivo.

Foto: Divulgação

Joaquin Phoenix, como habitual, domina toda cena em que está presente. Uma característica que dialoga com o tipo de cinema pretendido por Aster – de ostensividade, preenchimento, interposição -, não à toa o longa é o segundo da parceria. O ator concebe seu Joe como um sujeito bem intencionado, mas limitado intelectualmente, esperto, mas não malandro e que não consegue dimensionar a repercussão de seus atos. É uma figura que se ajusta ao léxico e tipos desagradáveis que o ator tão bem aborda, mas é também um amálgama assertivo do trumpismo em um filme que ignora a vocação de registro histórico para ceder, mais uma vez, à iconografia do que apresenta; enxergando em seu arranjo estético um comentário em si sobre a crise enunciada.

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