Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

"Sonhos de Trem" é registro delicado das obliterações da vida

Por Reinaldo Glioche

É interessante como Clint Bentley filma troncos machucados enquanto mergulha sua audiência em silêncios. A comunhão com a natureza é algo perseguido pela estética de “Sonhos de Trem”, algo reforçado pela sublime fotografia do brasileiro Adolpho Veloso. O longa da Netflix é uma reflexão sobre a vastidão, e ainda assim, insignificância da vida; sobre o luto como força definidora da existência e a subsistência como molde do viver.

É um filme delicado que se apoia na não linearidade do fluxo de pensamentos – alguém contando a história de um homem ordinário – para tatear o sentido que todos buscamos. É um filme que compreende a subjetividade do tempo e como esta nos afeta no todo, mas também nas partes.

No centro dessa observação está Robert Grenier (Joel Edgerton), um lenhador introspectivo que não sabe de onde veio e teme para onde vai. É neste compasso que ele se casa e tem uma filha. Enquanto sua esposa faz planos para o futuro, ele se afasta por longos períodos para trabalhar onde suas habilidades são necessárias. É um trabalho solitário, ainda que ele o faça sempre na companhia de outras figuras tão deslocadas quanto ele.

As memórias de Grenier se atropelam em um ritmo muito próprio, reforçando a ideia de aleatoriedade, mas também dessa busca incessante por sentido. Na trajetória acidentada do protagonista, Bentley, que assina o roteiro junto com Greg Kwedar a partir do romance de Denis Johnson, faz pertinentes comentários sobre as angústias e as belezas do viver. É do entendimento emanado de experiências cruas e singelas, que o filme se empodera.

A atuação minimalista erguida em sutilezas múltiplas de Joel Edgerton, no melhor desempenho de sua carreira, conduz o espectador por esse assalto de emoções.

“Sonhos de Trem” é um tipo de cinema que deve muito à Terrence Malick, um diretor que pauta investigações filosóficas em elaborações estéticas divagativas. É, portanto, um cinema que busca a sensorialidade como parte da experiência. Que enxerga na imersão um pressuposto de compreensão, de descobrimento, de sinergia. Não há alegorias, apenas o testemunho de uma vida simples que possibilita o entendimento das complexidades da existência.

Isso pode te interessar

Arquitetura & Urbanismo

Primeira Bienal brasileira aposta em identidade e contexto para repensar o espaço construído

Reportagens

Comemorações dos 50 anos da Funarte fortalecem a Cultura do Brasil

Cinema

Aos 100 anos, Odeon representa resistência do cinema de rua no Rio

Questões Políticas

Caiado é prenúncio da direita que flerta com o pós-bolsonarismo

Newsletter Gratuita

Tenha o melhor da cultura na palma da sua mão. Assine a newsletter gratuita de Culturize-se. Todos os dias pela manhã na sua caixa de e-mail.