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Crime e casamento movem o intenso "Os Enforcados"

Por Reinaldo Glioche

Com “O Lobo Atrás da Porta” (2013), um thriller urbano impactante, Fernando Coimbra revelou ser um cineasta de grande domínio dos códigos de gênero e de refinado apuro estético. São qualidades reafirmadas em “Os Enforcados”, um suspense de grande categoria que remete à Macbeth para versar sobre crime, jogo do bicho e relações conjugais.

Em “Os Enforcados”, Valério (Irandhir Santos) e Regina (Leandra Leal) formam um casal vivendo confortavelmente na Zona Oeste do Rio de Janeiro, graças ao império do jogo do bicho construído pelo pai e pelo tio dele. Valério, que acredita ter mantido suas mãos limpas, precisa lidar com as pendências de sua família, em um meio que obedece a leis próprias. Incentivado pela ambiciosa mulher, ele tenta uma jogada que ambos consideram infalível. Só que a empreitada se revela cada vez mais problemáticas, testando não apenas a força daquela união, mas também a capacidade de improviso e adaptação de Valério e Regina.

Irandhir Santos, que ostenta um rol de personagens ricos e plurais no cinema e dono de um repertório dramático acima de qualquer suspeita, reveste seu Valério de uma fragilidade submersa, mas que escala para uma paranoia caótica. Algo vislumbrado de maneira sugestiva no fetiche que nutre e pratica com sua esposa. O ator tangencia a aspiração shakespeariana do longa e lhe outorga propriedade dramatúrgica. Já Leandra Leal empresta a sua personagem a dialética da perua carioca, algo que faz com retidão e respeito, o que torna o registro mais efetivo. A atriz é agraciada pelas soluções de roteiro mais acachapantes do filme e responde à altura, elevando a força dramática do ato final.

Foto: Divulgação

“Os Enforcados” é uma crônica tipicamente carioca, do traço dos personagens ao dia dia do crime, mas não se furta ao exame do casamento. É dessa dialética tão peculiar que o filme tira sua força.

Fernando Coimbra entrega um filme elegante, com elipses eloquentes e sinapses potentes. “Os Enforcados” é um testemunho de seu talento, mas também é testamento do cinema como um altar das possibilidades narrativas.

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