Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

"O Fim da Rua" aposta em fórmula spilbergiana e agrada com drama familiar e dinossauros

Por Reinaldo Glioche

Um dos poucos filmes realmente originais deste verão americano — isto é, não adaptado de uma propriedade intelectual preexistente ou derivado de uma franquia —, “O Fim da Rua” se revela um entretenimento eficiente e, sobretudo, digno. Dirigido por David Robert Mitchell, de Corrente do Mal e “O Mistério de Silver Lake”, o longa dialoga abertamente com uma tradição cinematográfica associada a Steven Spielberg, ao mesmo tempo em que incorpora elementos do cinema de J.J. Abrams, que, não por acaso, atua como produtor.

A aproximação com Spielberg é particularmente evidente na maneira como Mitchell combina uma situação extraordinária com um núcleo familiar reconhecível. É sobretudo com o cinema spielbergiano dos anos 1980 e início dos 1990 que “O Fim da Rua” estabelece sua conversa mais evidente. O fascínio pelo fantástico nasce menos da necessidade de explicar o extraordinário do que da reação de pessoas comuns diante de algo que simplesmente não conseguem compreender.

No centro da história está uma família suburbana dos anos 1980 atravessando, cada integrante à sua maneira, uma crise doméstica. Denise, interpretada por Anne Hathaway, vive um momento de profunda angústia diante dos rumos que sua vida tomou. Secretamente, ela escreve e utiliza a literatura como espaço para dar vazão a fantasias de recomeço — entre elas, a possibilidade de abandonar o marido e os filhos e começar uma nova vida.

Greg, vivido por Ian McGregor, também guarda um segredo: foi demitido e tenta esconder a situação da esposa enquanto procura garantir o sustento da família por meio de trabalhos temporários, como entregador de pizza. Os filhos, por sua vez, também carregam seus próprios conflitos. Mitchell faz questão de apresentar essas questões antes de transformar a família em protagonista de uma situação absolutamente extraordinária. E isso é fundamental para que o espectador se importe com aquelas pessoas quando, de uma hora para outra, tudo ao redor delas muda.

Em uma noite, parte do bairro onde vivem é deslocada para um passado remoto, em plena era dos dinossauros. A premissa poderia facilmente servir de ponto de partida para um espetáculo de efeitos visuais. Mitchell, entretanto, toma uma decisão narrativa bastante inteligente: durante os primeiros 40 minutos, enquanto personagens e espectadores tentam compreender o que está acontecendo, os dinossauros praticamente não aparecem. Embora a própria premissa já revele a natureza da ameaça, o diretor prefere trabalhar com a angústia, a ansiedade e a apreensão provocadas por aquilo que permanece fora de campo.

Foto: Divulgação

É uma escolha que funciona porque transforma a expectativa em elemento de tensão. Quando os dinossauros finalmente surgem, o impacto não depende apenas da dimensão visual daquelas criaturas, mas do estado psicológico em que o filme colocou seus personagens — e, consequentemente, o espectador. O desespero, o medo e a completa falta de perspectiva são muito bem traduzidos pelas atuações. As sequências são tensas e cuidadosamente construídas, e o desenvolvimento da história se dá de maneira simples e orgânica.

Visualmente, “O Fim da Rua” também é interessante, mas são as escolhas narrativas de Mitchell que mais chamam a atenção. O filme se insere no território da ficção científica e trabalha com conceitos como buracos de minhoca e deslocamentos no tempo e no espaço. São conceitos relacionados à física apresentados de maneira acessível, sem que o roteiro tenha a pretensão — ou a necessidade — de desconstruí-los em profundidade. Para o espectador médio, a lógica proposta é suficientemente clara para que a narrativa avance sem transformar a explicação científica em obstáculo dramático.

Mais importante, porém, são algumas das decisões corajosas tomadas pelo diretor ao longo da trajetória. A mais interessante delas talvez seja colocar o drama familiar em primeiro plano sem permitir que ele eclipse aquilo que continua sendo o principal motor da história: uma família perdida tentando sobreviver em um mundo tomado por dinossauros.

É justamente na conjugação dessas duas dimensões que o filme triunfa. O conflito familiar não funciona como um adorno emocional acrescentado à aventura, tampouco a ameaça jurássica serve apenas como desculpa para produzir espetáculo. As duas linhas narrativas se alimentam mutuamente. O casal interpretado por Hathaway e McGregor, por exemplo, atravessa uma crise conjugal justamente quando sua existência é transformada em uma luta pela sobrevivência. A ideia de uma família em crise obrigada a se reencontrar diante de uma situação extraordinária é, novamente, um tema muito caro a Spielberg.

Por isso, talvez seja possível definir “O Fim da Rua” como um filme spielbergiano dos anos 1980 e início dos 1990 realizado por David Robert Mitchell. Ele conversa diretamente com uma memória cinematográfica muito associada aos millennials, embora tenha predicados suficientes para encontrar também uma audiência entre espectadores da geração Z. Existe, contudo, um recorte demográfico bastante específico nessa proposta: o filme parece conscientemente interessado em recuperar um determinado tipo de aventura familiar que marcou uma geração. Nesse sentido, funciona até mesmo melhor do que o filme que Spileberg lançou em 2026, “Dia D”.

Há ainda uma dimensão curiosa na maneira como Mitchell utiliza os conceitos de física para conduzir o filme até seu desfecho. Sem assumir exatamente um final feliz, o longa encontra uma resolução menos melancólica do que aquela que parecia iminente. E essa escolha sintetiza uma das características mais interessantes do trabalho do diretor: a disposição para correr riscos sem que isso signifique abandonar aquilo que ele pretende preservar cinematograficamente.

Nesse sentido, “O Fim da Rua” funciona também como uma espécie de provocação a cineastas que, muitas vezes, optam por caminhos mais seguros. Mitchell demonstra que é possível fazer escolhas narrativas conscientes e relativamente perigosas, experimentar com conceitos de ficção científica e, ainda assim, manter o vínculo emocional com o público.

Isso pode te interessar

Marketing

Deezer aposta em experiências exclusivas para engajar e reter assinantes no Brasil

Plataforma age para criar senso de comunidade entre seus clientes

Marketing

OpenAI começa a testar anúncios no ChatGPT no Brasil e mira novo ecossistema de publicidade digital

Play

Streaming aposta em anúncios e planos gratuitos para continuar crescendo

Com o mercado de assinaturas saturado, Netflix, Disney e outras gigantes do setor testam modelos híbridos

Play

Lars Von Trier prepara seu testamento cinematográfico

Newsletter Gratuita

Tenha o melhor da cultura na palma da sua mão. Assine a newsletter gratuita de Culturize-se. Todos os dias pela manhã na sua caixa de e-mail.