Por Reinaldo Glioche
Há filmes que pedem para ser ouvidos. “Motor City” pede para ser olhado. A premissa é enxuta: John Miller, ex-presidiário, busca vingança contra o gangster que o incriminou e ficou com sua namorada, na Detroit de 1977. É material de filme B, e o trunfo do longa é assumir isso sem pedir desculpas. O roteiro de Chad St. John evita reviravoltas que o silêncio não conseguiria carregar, e essa simplicidade é deliberada. A trama funciona como esqueleto, e o filme está no que vem por cima dela.
O que vem por cima é um pulp de alto requinte. O diretor Potsy Ponciroli aposta em ação hiperestilizada, desenho de som imersivo e uma trilha assinada por Jack White. A fotografia usa lentes anamórficas e luz natural esmaecida, o que dá à cidade a textura suja e granulada dos thrillers setentistas. A sensção que se tem ao assistir ao longa é de se estar diante de um filme B filtrado por uma sensibilidade de cinema de arte. A câmera lenta e os trechos conduzidos por canções, em vez de diálogos, aproximam o filme de Scorsese e de Tarantino sem que soe como imitação.
A ambição estética de Ponciroli é o maior mérito do projeto. Ele vinha de títulos menores, como “Old Henry” e “Greedy People”, e aqui trabalha com um orçamento de cerca de US$ 30 milhões e um risco considerável. Tirar quase toda a fala de um filme de ação exige mais da direção, porque o espectador passa a prestar mais atenção aos elementos visuais e à atuação contida. O cineasta dá conta: enquadra e coreografa uma imagem marcante atrás da outra. Ele próprio descreve o longa como uma carta de amor a Detroit e ao cinema dos anos 70, pensada para a tela grande. A declaração soa pretensiosa, mas o filme a sustenta. Nas cenas de pancadaria, o confronto corpo a corpo entre Ritchson e Pablo Schreiber, que faz um policial corrupto, desponta como uma das melhores cenas do ano no gênero.

Sem falas, o trabalho recai sobre o corpo, e é aí que Alan Ritchson se impõe. Ele troca o visual asseado de Jack Reacher por cabelos longos, barba cheia e mais massa muscular, e essa mudança física já o afasta do personagem que o tornou conhecido. A atuação vai além do porte. Ritchson constrói um operário traído que passa a ser movido pela dor e cuja fúria se lê no rosto e nos ombros. Ben Foster, vilão de presença magnética, e Shailene Woodley dão o contraponto necessário a um elenco que precisa dizer tudo com o olhar.
Ritchson mostra que a imagem de brutamontes de “Reacher” não é teto. Ele é produtor do filme, o que indica que escolheu o risco. Ao se entregar a um papel quase mudo, ele prova que sustenta um longa só com presença, física e expressividade, e que pode transitar entre o blockbuster e o cinema de autor. É esse tipo de aposta que separa um astro de série de um astro de cinema de ação.
“Motor City” não é para todos, e nem pretende ser. Mas quem entrar em sua sintonia encontra um filme singular, sensorial e coerente com suas escolhas. O longa pode ser daqueles que as pessoas vão comentar por anos. Ponciroli passa a ser um nome para acompanhar, e Ritchson ganha o filme que pedia para provar que seu lugar no gênero é maior que o de um personagem