Por Reinaldo Glioche
Há uma ideia poderosa no centro de “Morte e Vida Madalena”, novo filme de Guto Parente. Fazer um filme pode ser, ao mesmo tempo, um ato de dar à luz e um processo de luto. Produzir cinema é colocar alguma coisa no mundo. Mas também é lidar com aquilo que se perdeu pelo caminho, com ideias abandonadas e com a necessidade de transformar a ausência em alguma forma de continuidade.
A protagonista Madalena está grávida de oito meses quando o pai morre. Produtora de cinema, ela precisa assumir as rédeas do filme de ficção científica B que ele deixou em andamento. Como se não bastasse a gravidez avançada e o luto, Davi, diretor do filme e seu ex-marido, desaparece misteriosamente do set. Resta a Madalena fazer das tripas coração para concluir a produção antes que o bebê nasça.
É uma situação que contém, em si mesma, uma boa dose de absurdo e uma metáfora cinematográfica bastante fértil. O filme que precisa nascer enquanto uma personagem se prepara para dar à luz; o pai que morre enquanto sua obra tenta sobreviver; o ex-marido que desaparece enquanto as relações afetivas da protagonista se confundem com as profissionais. Vida, morte e cinema se embaralham. E Guto Parente sabe que há graça nesse caos.
A precariedade da produção, os problemas burocráticos, as soluções improvisadas e os percalços de uma equipe tentando manter de pé um projeto cinematográfico alimentam a comédia. É também uma declaração de amor ao próprio cinema, entendido pelo diretor como um lugar de aprendizado, crescimento e transcendência.
O problema é que Morte e Vida Madalena parece incapaz de extrapolar essa ideia matriz. A produção acaba não indo muito além da própria metáfora. Tudo parece convergir para ela: o luto, a maternidade, o desaparecimento do diretor, os conflitos afetivos e a produção do filme. O conflito central fica excessivamente preso a essa engrenagem conceitual, sem que o cineasta consiga arejá-la.

A impressão, em determinados momentos, é de que estamos diante de um filme de 80 minutos que talvez encontrasse uma forma mais potente em uma duração ainda menor. Muitos diálogos soam como ensaios, declarações de princípios ou manifestações dos próprios personagens sobre aquilo que o filme pretende discutir. Em vez de a ideia emergir da narrativa, frequentemente é a narrativa que parece trabalhar para reafirmar a ideia.
Isso não significa que não exista charme na empreitada. Existe. Sobretudo para quem conhece ou aprecia o cinema independente brasileiro, seus improvisos, suas precariedades e aquela disposição quase romântica de continuar produzindo apesar de tudo. Há uma identificação possível com Madalena justamente porque ela parece carregar sobre os ombros o próprio espírito de resistência de quem faz cinema à margem das estruturas mais confortáveis.
Mas um filme não pode pensar apenas em seu nicho. E esse talvez seja o principal problema de “Morte e Vida Madalena”: ele parece querer conversar primordialmente com uma fração do público que já compartilha de suas referências e de seu amor pelo cinema. Nesse processo, aquilo que havia de mais potente em sua premissa acaba se esvaindo.
Quando o filme termina, fica a sensação de que Madalena conseguiu sobreviver ao caos, mas o filme não conseguiu escapar completamente dele.