Por Reinaldo Glioche
Luca Guadagnino é um provocador nato. Embora ele rejeite o rótulo, essa condição é ratificada em seu novo filme, o estupendo “Depois da Caçada”. O cineasta mira conflitos geracionais, a opressão do cancelamento como eixo cultural, casamentos em crise, e, fundamentalmente, os conflitos internos deflagrados por questões que nos atravessam. Tudo com a sofisticação cênica que lhe é característica, embora o longa seja absolutamente distinto, em dramaturgia e estética, de produções recentes como “Rivais” (2024) e “Queer” (2024). Outro testamento da qualidade singular do italiano.
A sofisticação do roteiro de Nora Garrett é notável. Texto e diálogos manuseiam hesitações e intenções dos personagens com certo grau de perversidade e confrontam angústias e convicções da audiência com um esmero fascinante. Não é à toa que a ação se desenrola na universidade de Yale no departamento de filosofia. Moral, ética, percepções e desejos colidem em uma trama que exige desapego do espectador, mas atenção concentrada. Também não é à toa que há um psiquiatra em cena que verbaliza percepções que ficam à espreita.

O drama psicológico é pujante. Alma (Julia Roberts) se encontra conflagrada após uma aluna que lhe tem no pedestal, Maggie (Ayo Edebiri), acusa Hank (Andrew Garfield), assim como Alma professor assistente em Yale, de abusar dela. Alma e Hank têm uma relação complexa, embora de fácil trânsito. Algo capturado pelo marido de Alma, Frederik (Michael Stuhlbarg), que mesmo frustrado com essa condição, não está disposto a abrir mão da esposa. Que mesmo amando Hank parece preferir permanecer em um casamento de intimidade suspensa.
Todo esse contexto entra em ebulição com o fato aventado por Maggie, que parece nutrir algum tipo de desejo por Alma. Não fica claro, propositalmente, se Maggie está falando a verdade. Hank traz elementos que põem em dúvida a versão da aluna, algo que a audiência pode buscar refúgio no diagnóstico que Frederik tem dela.
Guadagnino e Garrett fornecem pistas e percepções que pressionam a audiência a abandonar certezas e relativizar concepções. Há a clara disposição de provocar, reflexão, mas também conflito, no íntimo da audiência. Há, ainda, um comentário feroz sobre como a cultura está precarizada na esteira de conflitos geracionais, que vão desde ambição profissional a posicionamento social. A ideia, tão bem expressa pelo slogan do filme (Nem tudo foi feito para te deixar confortável) encampa bem essa dicotomia geracional, algo que o epílogo sublinha com ainda mais força.
Da depressão millennial ao positivismo tóxico da Geração Z, não sobra pedra sobre pedra em “Depois da Caçada”. Todos os personagens são atingidos pelos insidios que a cultura vigente propicia. Mas o que importa, dado a bagagem que nos familiarizamos de Alma, é aquele epílogo. É ele que batiza o filme. E é ele, em última análise, que tangencia sua provocação máxima.


