Por Reinaldo Glioche
Kathryn Bigelow, a primeira mulher a ganhar o Oscar de direção, não fazia um filme há sete anos. Seu retorno, com o perdão do trocadilho, não poderia ser mais explosivo. “Casa de Dinamite” é um thriller político de alta voltagem que imagina a resposta do governo dos EUA à eventualidade de um míssil nuclear ser lançado contra o país. Mais: sem que haja a identificação de qual o país agressor.
Bigelow e o roteirista Noah Oppenheim especulam a respeito de como a aparência de controle e poder, maior ativo geopolítico dos EUA, é exatamente isso: nada mais do que aparência. E ela pode ser dizimada diante de um estímulo como o que o filme oferece.
A ação se desdobra em torno de 20 minutos entre o disparo da arma nuclear, que os elaborados e caríssimos sistemas de defesa dos EUA falharam em rastrear a origem e posteriormente na interceptação do míssil, e sua chegada à cidade de Chicago, o alvo do disparo. Só que o filme faz um recorte multidimensional desses 20 minutos. Passando desde o centro de controle operacional do exército dos EUA, passando pelo Secretário de Defesa dos EUA, pela NSA (Agência de espionagem norte-americana) e, finalmente, pelo presidente dos EUA, instado a definir como reagir ao imponderável.
Em um mundo de tensões fabricadas por interesses cada vez mais obliterados, “Casa de Dinamite” soa urgente. É filmado como uma ópera do caos, mas com rigor acadêmico por uma diretora dominante e com foco muitíssimo bem definido. Da trilha sonora que eleva o tom de alarme ao elenco na ponta dos cascos, tudo no no filme original da Netflix exala excelência.
O final, um corte anticlimático profundamente eloquente das intenções da realização, é um convite à reflexão de que essa casa de dinamite em que o planeta vive está mais instável e suscetível do que jamais esteve e que o tempo de otimismo talvez já tenha ficado para trás.


