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Opulento, "A Noiva!" é cinema inconformista e caótico com orgulho

Por Reinaldo Glioche

Um dos aspectos mais louváveis da Warner Bros., que está para ser adquirida pela Paramount Skydance, enquanto estúdio, é sua disposição à liberdade criativa de autores para conceber filmes eminentemente próprios e disruptivos. Apenas nesse início de 2026 tivemos “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emerald Fennell e este “A Noiva!”, de Maggie Gyllenhall. Dois filmes concebidos por mulheres a partir de obras consolidadas, mas com visões distorcidas, ousadas e efervescentes.

Enquanto se roga para que esta caraterística se preserve na nova era da Warner, é possível se embevecer pela realização de Gyllenhall. Uma obra dicotômica em essência, caótica na forma e dramaticamente estranha, exquesité, como pregam os gringos.

Maggie Gyllenhall orienta seus atores | Fotos: Divulgação

É curioso, ainda, que este filme saia tão pouco tempo depois do “Frankenstein” de Guillermo Del Toro. Se lá o romantismo existencial dá o tom, aqui o anarquismo – temático, mas também narrativo, prevalece. É uma opção estética, que dialoga com a maneira que as referências cinematográficas se amontoam e redefinem o filme a todo momento. “A Noiva!” pulsa inconformidade perante as expectativas do público, da crítica e da própria obra em que se baseia.

A coragem de Gyllenhaal encontra par na atuação exasperada de Jessie Buckley, que entende que sua personagem é forma; é dor; é angústia. Mas para balizar uma história de amor – e “A Noiva!” também é uma história de amor -, ela também precisa ser humana. Algo que Buckley vai desvelando aos poucos na interação sempre condoída e desastrada com o Frankenstein de Christian Bale, um personagem muito mais unidimensional aqui, embora defendido com graciosidade e vocação por Bale.

Nem tudo, é verdade, funciona harmonicamente no filme – algo inevitável nas colagens propostas por Gyllenhaal. Ainda assim, há a construção de uma identidade narrativa envolvente e que ajuda a tangenciar aqueles espíritos livres presos à solidão de suas existências. Nesse contexto, é interessantes observar “A Noiva!” como um horror feminista. Da possessão de Ida, no espetacular prólogo, à revolução desencadeada pela noiva que fala pelos mortos, o filme se conecta com uma inquietação socialmente relevante, embora não se deixe por ela contaminar.

Gyllenhall não está interessada em fazer um high horror, mas usar o gênero como baliza para angústias perenes e fazê-lo de forma criativa e ilativa.

Destinado ao culto, assim como à incompreensão, “A Noiva!” é um filme extemporâneo. Transita do gótico ao pós-moderno sem calcar-se no presente. É esteticamente audacioso demais para uma audiência doutrinada pelo TikTok. Desavergonhadamente independente das premissas hollywoodianas para se encaixar nas ideias de bom ou ruim. É um filme que quer muito e essa opulência faz dele algo genuíno e estranhamente ressonante.

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