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Em "Vladimir", o desejo feminino e a política sexual contemporânea se chocam

Por Reinaldo Glioche

Em uma época cada vez mais definida por uma televisão de prestígio segura e por narrativas moldadas para agradar algoritmos, “Vladimir” surge como uma curiosa anomalia. É uma série que aponta para a provocação, a complexidade e a ambiguidade moral, mas que permanece atrelada a uma certa contenção que, ao mesmo tempo, aguça e limita seu impacto. Adaptada do romance de 2022 de Julia May Jonas, a produção da Netflix de oito episódios preserva muito do vigor intelectual do material de origem — seu humor sombrio, sua fascinação por poder e desejo e sua disposição em habitar zonas cinzentas desconfortáveis. Ao mesmo tempo, revela a tensão inerente à transposição desse tipo de obra para a tela: até onde uma história pode ir sem correr o risco de alienar justamente o público que pretende engajar?

No centro de “Vladimir” está a excepcional Rachel Weisz, cuja atuação ancora a série com notável precisão. Como uma professora de inglês, sem nome revelado ao público, que enfrenta as consequências do escândalo de má conduta sexual envolvendo seu marido, John (vivido pelo sempre ótimo John Slttery), Weisz constrói um estudo de personagem que é, ao mesmo tempo, controlado e volátil. John é acusado de ter se envolvido com alunas anos antes, em um período anterior às mudanças institucionais impulsionadas pelo movimento #MeToo. Sua defesa (“era outra época”) ecoa não apenas pelos corredores da universidade, mas também pelo cenário cultural mais amplo que a série busca examinar.

O que torna “Vladimir” instigante não é seu interesse em julgar culpa ou inocência, mas em expor a fragilidade dos próprios parâmetros pelos quais tais julgamentos são feitos. A protagonista sempre soube das traições do marido; seu casamento, como ela ironicamente observa, funcionava como “um casamento aberto, mas sem toda aquela comunicação horrível”. A frase sintetiza o tom da série: afiado, irônico e profundamente revelador das atitudes geracionais em relação à intimidade, à autonomia e à negação.

A série complexifica ainda mais essa dinâmica ao introduzir Vladimir, um colega mais jovem que se torna objeto do desejo obsessivo da protagonista. Interpretado por Leo Woodall com um equilíbrio cuidadoso entre charme e ambiguidade, Vladimir pode ou não corresponder à atração. Essa incerteza é central. A narrativa insiste em perguntar se essa conexão é real ou apenas projetada — uma fantasia nascida de uma mulher confrontando sua própria perda de relevância em um mundo que progressivamente a marginaliza.

Esse sentimento de deslocamento permeia toda a trama. Os alunos da protagonista a veem como ultrapassada; sua filha a enxerga como emocionalmente imatura; seu marido já não a deseja. Vladimir torna-se menos uma pessoa e mais um símbolo; um receptáculo para desejo, ressentimento e o medo da obsolescência. Nesse sentido, “Vladimir” dialoga com um conjunto crescente de trabalhos na carreira de Weisz, como Dead Ringers e “Desobediência”, que se concentram em mulheres cujas ambições e desejos ultrapassam os limites que lhes são impostos.

Formalmente, a série emprega recursos que reforçam sua intimidade psicológica. A protagonista frequentemente quebra a quarta parede, dirigindo-se diretamente ao público em monólogos que oscilam entre confissão e racionalização. Esse dispositivo, muitas vezes artificial em mãos menos seguras, torna-se aqui um dos pontos fortes da produção. Weisz trata o espectador como confidente e intruso ao mesmo tempo, nos envolvendo em sua lógica interna enquanto questiona, de maneira sutil, nossa cumplicidade.

No plano tonal, no entanto, “Vladimir” ocupa um terreno instável. Comercializada como um thriller erótico, sua carga erótica frequentemente se manifesta por meio da fantasia com devaneios fugazes, encontros imaginados e momentos de percepção intensificada. O resultado é uma série mais cômica do que sensual, inclinando-se para o absurdo e a sátira em vez da intensidade crua. Isso não é necessariamente um defeito; de fato, o humor — seco, observacional, ocasionalmente surreal — está entre os elementos mais eficazes da obra. Ele satiriza divisões geracionais, a cultura acadêmica e os aspectos performáticos da identidade contemporânea com leveza e precisão.

Onde a série enfraquece é em sua relutância em se comprometer plenamente com seus impulsos mais transgressivos. Há vislumbres de algo mais selvagem, mais descontrolado — uma versão da protagonista que poderia realmente desestabilizar o equilíbrio narrativo —, mas esses momentos são constantemente contidos. As cenas de abertura e encerramento sugerem uma descida ao caos que nunca se concretiza. Em vez disso, a série opta pela ambiguidade, uma escolha que soa menos como um gesto artístico deliberado e mais como uma cautela diante do risco.

Essa contenção também se estende ao tratamento de seus temas centrais. “Vladimir” levanta questões relevantes sobre poder, consentimento e as transformações nas normas da política sexual, mas raramente as investiga em profundidade. O conflito geracional, entre aqueles formados por paradigmas antigos de relacionamento e aqueles moldados por estruturas contemporâneas de responsabilização, é apresentado, mas não plenamente desenvolvido. O ceticismo da protagonista em relação às acusações contra o marido, por exemplo, é provocador e até desconfortável, mas a série evita explorar suas implicações mais a fundo.

Ainda assim, há valor nessa ambiguidade. “Vladimir” resiste a classificações morais fáceis, insistindo na complexidade das motivações humanas. Seus personagens não são inteiramente simpáticos nem completamente condenáveis; são, como a série sugere reiteradamente, produtos de seus contextos, histórias e desejos. Nesse sentido, sua maior força reside justamente na recusa em oferecer resolução. A série não busca responder às perguntas que levanta, mas deixá-las em suspenso; irresolutas e, talvez, irresolvíveis.

No fim, Vladimir é uma obra sobre percepção. Sobre como nos vemos, como somos vistos e como essas percepções se transformam ao longo do tempo. É também sobre as narrativas que construímos para justificar nossas ações e as verdades incômodas que persistem sob elas. Ainda que não leve suas ideias tão longe quanto poderia, permanece uma exploração perspicaz e bem observada da meia-idade, do desejo e do encontro incerto entre o pessoal e o cultural.

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