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"The Madison" aborda luto e deslocamento com ternura e excelente Michele Pffeifer

Por Reinaldo Glioche

Poucos criadores na televisão contemporânea conseguiram estabelecer uma assinatura tão reconhecível quanto Taylor Sheridan. Responsável por sucessos como “Yellowstone”, “Mayor of Kingstown”, “Special Ops: Lioness” e “Tulsa King”, Sheridan consolidou um ecossistema narrativo centrado em tensões entre poder, território e identidade. Com “The Madison”, ele não apenas ratifica essa vocação, mas a reconfigura sob uma chave mais íntima, quase introspectiva.

A série surge como uma herdeira existencial de “Yellowstone”, mas rapidamente revela ambições próprias. Se a produção estrelada por Kevin Costner se apoiava em conflitos de poder e disputas territoriais, “The Madison” desloca o eixo dramático para o campo da subjetividade — mais especificamente, para o luto como experiência transformadora.

No centro dessa narrativa está Stacey Clayburn, vivida por uma Michelle Pfeiffer em desempenho notável. Em seu primeiro grande papel televisivo, a atriz constrói uma personagem de múltiplas camadas: uma mulher moldada pela elite nova-iorquina, confortável na superficialidade e nos códigos sociais de um mundo regido por aparências. Essa estrutura, no entanto, é brutalmente rompida pela morte do marido, interpretado por Kurt Russell, evento que desencadeia uma crise existencial profunda.

A mudança temporária para Montana, espaço simbólico recorrente na obra de Sheridan, não é apenas geográfica, mas ontológica. Ao deslocar Stacey de seu habitat natural para um ambiente marcado pela vastidão, pelo silêncio e por uma lógica de vida mais elementar, a série constrói um contraste potente entre dois modos de existência. Esse choque cultural, tratado com a habilidade habitual do criador, evita caricaturas e se sustenta em nuances.

É nesse cenário que o luto se impõe como força motriz da temporada inaugural, composta por seis episódios. Sheridan realiza aqui um estudo minucioso sobre como a perda reorganiza a percepção de mundo. Stacey não apenas sofre, mas se desorienta. Suas certezas se dissolvem, suas prioridades se tornam opacas, e o próprio sentido de continuidade da vida é colocado em suspensão.

Fotos: Divulgação

O mérito da série está em não restringir essa experiência à protagonista. O luto reverbera nos demais personagens, criando um tecido emocional complexo. Cada figura reage de maneira distinta à ausência, revelando que o sofrimento não é uniforme, mas atravessado por histórias, vínculos e expectativas individuais.

Outro elemento digno de nota é o uso do humor. Sheridan, conhecido por sua capacidade de equilibrar tons, insere momentos de leveza com precisão cirúrgica. Trata-se de um humor sutil, quase terapêutico, que não dilui o drama, mas o humaniza. Essa escolha narrativa impede que a série se torne excessivamente pesada, ao mesmo tempo em que aprofunda sua dimensão emocional.

Do ponto de vista formal, “The Madison” mantém o alto padrão técnico associado ao universo de “Yellowstone”. A fotografia de Montana é, mais uma vez, um espetáculo à parte. A amplitude das paisagens, a incidência da luz natural e a presença constante do silêncio funcionam não apenas como elementos estéticos, mas como extensões do estado psicológico da protagonista. O espaço, aqui, é também personagem.

Nos episódios finais, a narrativa retorna a Nova York, fechando um arco que é menos geográfico do que existencial. É nesse momento que a série atinge seu ápice dramático, especialmente nas interações entre Stacey e seu terapeuta, interpretado com robustez dramática por Will Arnett. Esses encontros funcionam como arenas de confronto interno, onde a personagem é obrigada a encarar perguntas fundamentais: quem ela era, quem se tornou e, sobretudo, quem deseja ser após a tragédia.

Há, nesses diálogos, uma densidade filosófica que eleva a série. Sheridan abandona qualquer tentação de respostas fáceis e aposta na ambiguidade. Stacey não emerge transformada de maneira linear; o que vemos é o esboço de uma mudança ainda em gestação, incompleta, mas inevitável.

Este talvez seja o maior trunfo de “The Madison”. Sua recusa ao imediatismo. Em vez de recorrer a ganchos artificiais ou reviravoltas espetaculares, a série constrói sua narrativa a partir de um “tempo interno”, respeitando o ritmo da experiência emocional. O resultado é uma obra que exige atenção e entrega, mas que recompensa com uma profundidade rara no panorama televisivo atual – e até mesmo no metiê de Sheridan.

Embora dialogue diretamente com os fãs de “Yellowstone”, “The Madison” é acessível a um público mais amplo, interessado menos em disputas de poder e mais em dilemas humanos universais. O luto, afinal, é um tema que atravessa fronteiras culturais e sociais.

Em última instância, a série propõe uma reflexão sobre a possibilidade de reinvenção. Ao confrontar Stacey com sua própria finitude emocional, Sheridan sugere que a perda, por mais devastadora que seja, pode abrir espaço para novas formas de existência. Não se trata de superação no sentido convencional, mas de reorganização — de aprender a habitar o mundo de outra maneira.

Com uma protagonista magnética e uma condução narrativa segura, “The Madison” se afirma como uma das produções mais interessantes dentro do ecossistema criado por Taylor Sheridan. Representa, ainda, uma expansão temática que aposta na introspecção como caminho para renovar um universo (o tal Sheridanverse) já consolidado.

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