Por Reinaldo Glioche
Poucas séries na atualidade conseguem se organizar de maneira que cada cena pareça importar. A economia narrativa é um ativo particularmente valioso em tempos de dispersão algorítmica, déficit de atenção e dificuldade crescente de retenção da audiência. “A Casa do Dragão”, o espetacular spin-off de “Game of Thrones”, é uma dessas séries.
As intrigas palacianas, as reviravoltas políticas e as cenas de ação arrebatadoras, com dragões brigando no chão e nos ares, são evidentemente sedutoras. Mas não são necessariamente esses grandes momentos que tornam a série tão singular. São as minúcias, os pequenos golpes, as pequenas traições, as perdas humanas e a altivez dos grandes planos que conferem a “A Casa do Dragão” sua força particular.
E, nesse aspecto, a terceira temporada triunfa. É, de fato, a melhor temporada da série.
Aqui vemos Rhaenyra (Emma D´Arcy) ascendendo ao Trono de Ferro, e a temporada é particularmente bem-sucedida ao explorar a dúvida em torno de sua própria predestinação ao poder. Rhaenyra tenta conduzir um bom reinado, mas faltam dinheiro e apoio, enquanto seus inimigos continuam à espreita. A angústia de governar e a dificuldade de conciliar suas convicções morais com as necessidades do trono constituem o principal motor narrativo dessa temporada.

É justamente aí que a personagem sofre sua transformação mais significativa. Ao final do ciclo de episódios, assistimos a uma imagética fascista de Rhaenyra. Ela se divorcia completamente daquela mulher revolucionária que buscava o Trono de Ferro porque acreditava na legitimidade de sua reivindicação. A legitimidade continua sendo um princípio importante para ela, mas sua maneira de enxergar o poder, o circo palaciano e todos aqueles que orbitam ao redor do trono se modifica radicalmente.
O assassinato do Alto Septão é a expressão perfeita dessa transformação. A mulher que queria ocupar o trono por acreditar que tinha legitimidade para fazê-lo passa, progressivamente, a compreender o exercício do poder como uma autorização para eliminar aquilo que ameaça sua autoridade.
A grande batalha de Tumbleton, que movimenta o oitavo e último episódio da temporada, também dimensiona de maneira muito eficiente o que foi a Dança dos Dragões. É uma guerra capaz de levar famílias à extinção e de reduzir drasticamente a própria dinastia Targaryen — circunstância que ajuda a compreender o cenário que encontraremos posteriormente em “Game of Thrones”.
A terceira temporada consegue, nesse sentido, trabalhar muito bem a arquitetura da guerra, especialmente por meio de Ormond, interpretado com especial desdém por James Norton. O personagem funciona como uma força de oposição ao reinado de Rhaenyra e consegue miná-lo internamente, revelando que uma guerra não é composta apenas por grandes batalhas, mas também por pequenas disputas de poder capazes de corroer um governo por dentro.
Ao mesmo tempo, a temporada promove uma reorganização completa do tabuleiro. Alguns personagens se despedem depois de terem sido importantes ao longo dos últimos anos. Alicent (Olivia Cooke) é incumbida de matar o próprio filho, Aemond (Ewan Mitchell) sucumbe progressivamente à culpa e encontra em Alys (Gayle Rankin), uma feiticeira amaldiçoada, uma aliada de valor, cujos efeitos sobre a narrativa ainda estão por vir.
Mas talvez uma das sacadas mais interessantes da terceira temporada esteja justamente na mudança de perspectiva provocada na audiência em relação aos dois principais pleiteantes ao Trono de Ferro.



Rhaenyra, por quem torcíamos nas duas primeiras temporadas, começa a nos repelir por causa de algumas de suas atitudes neste terceiro ano. Aegon (Tom Glynn-Carney), por outro lado, aquela figura pedante e usurpadora do trono, acaba conquistando parte da nossa simpatia à medida que sofre uma sucessão de reveses, até protagonizar um retorno inesperado e triunfante no final da temporada.
Essa é uma das grandes belezas do universo de “Game of Thrones”. A ideia de mocinhos e vilões vai se embaralhando, as certezas se dissipam e as dúvidas se consolidam. Ninguém está realmente seguro.
É um mundo profundamente cruel — e isso se cristaliza na maneira como a batalha de Tumbleton chega ao fim. Depois de grandes maquinações políticas e militares, o destino de uma cidade inteira (e de um reinado?) acaba sendo determinado por uma pessoa que se sentiu humilhada. Ulf (Tom Bennet), personagem sempre apresentado como hesitante e invejoso, simplesmente monta em seu dragão e incinera uma cidade inteira de maneira indiscriminada.
A brutalidade da sequência está justamente na ausência de uma grande racionalidade por trás dela. Depois de tantas estratégias, alianças e cálculos políticos, é um gesto impulsivo que produz consequências gigantescas. E as repercussões desse ato deverão orientar a quarta e última temporada.

Mas, acima de tudo, ele dimensiona a imprevisibilidade desse universo. E, nesse sentido, espelha a própria vida. A guerra pode ser planejada, o poder pode ser calculado e as alianças podem ser cuidadosamente construídas, mas existe sempre um elemento humano — irracional, ressentido, impulsivo — capaz de colocar tudo abaixo.
É justamente aí que “A Casa do Dragão” encontra aquilo que tem de mais especial: a capacidade de observar e elaborar sobre a natureza corruptora do poder.
A terceira temporada entende que o poder não transforma apenas as circunstâncias ao redor de quem o exerce. Ele transforma a própria pessoa que o exerce. Rhaenyra começa a temporada tentando descobrir como governar sem abandonar aquilo em que acredita e termina cada vez mais disposta a destruir aquilo que considera uma ameaça à sua autoridade.
E talvez seja essa a verdadeira Dança dos Dragões: não apenas uma guerra entre famílias, mas o processo pelo qual pessoas que acreditavam estar lutando por legitimidade, justiça ou sobrevivência acabam se tornando exatamente aquilo que um dia diziam combater.