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Charli XCX vira o estrelato pop do avesso na sátira autoconsciente "The Moment"

Por Reinaldo Glioche

O que acontece depois da detonação cultural do Brat Summer? Quando a névoa verde-limão se dissipa, o merchandising é despachado, as datas da turnê são confirmadas e o algoritmo exige mais? Em “The Moment”, o diretor Aidan Zamiri e os co-roteiristas Bertie Brandes e Charli XCX oferecem uma resposta delirantemente autoconsciente: o verdadeiro espetáculo não é o show, mas a engrenagem que vibra por trás dele.

Estruturado como um falso documentário, mas pulsando como um reality show à beira do colapso, “The Moment” escala Charli XCX como uma versão distorcida de si mesma, refletida num espelho de parque de diversões. A premissa é simples e cortante: é 2024, o álbum “BRAT” é um fenômeno global, e a estrela pop está a poucas semanas de lançar uma turnê que não pode apenas dar certo — precisa sustentar um império. Patrocinadores cercam. Executivos traçam estratégias. Assistentes vibram com iPhones nas mãos. E Charli, no centro de tudo, começa a se desgastar.

O filme evoca a aura de “This Is Spinal Tap”. O fio narrativo central envolve a produção de um filme-concerto corporativo de “BRAT”, supostamente patrocinado pela Amazon. O que assistimos, no entanto, não é esse filme. É o drama ao redor dele: negociações, disputas de ego, dilemas de marca e espirais existenciais que emergem quando a arte colide com o comércio.

Charli é uma revelação. Em um de seus primeiros grandes papéis roteirizados, ela evita a caricatura e aposta em algo muito mais interessante: a pirralha como autocrata frágil. Coloca membros da equipe uns contra os outros, desaparece quando decisões ficam desconfortáveis e irradia o tipo de carisma disperso que define a fama contemporânea. É, ao mesmo tempo, incorrigível e vulnerável — uma monarca pop que não sabe se controla a máquina ou está sendo devorada por ela.

Ao seu redor gira um elenco afiado. Hailey Benton Gates quase rouba o filme como Celeste, diretora criativa de Charli e único elo com alguma realidade emocional. Ela equilibra as exigências cada vez mais absurdas da gravadora enquanto tenta proteger os instintos artísticos da cantora. Rosanna Arquette é glacialmente eficaz como a executiva determinada a manter o acordo com a Amazon nos trilhos, escondendo a brutalidade corporativa sob uma camada de profissionalismo impecável. E, em uma atuação iluminada e cômica, Alexander Skarsgård (como Johannes, o diretor dolorosamente quadrado do documentário do show) encarna o pesadelo criativo aprovado por marcas: condescendente, insensível e absolutamente convicto do próprio gosto.

Foto: Divulgação

Zamiri, conhecido por seu trabalho em videoclipes, imprime energia cinética ao caos, mas é o diretor de fotografia Sean Price Williams quem ancora o filme visualmente. Há sujeira sob o glamour — uma crueza nova-iorquina que contrasta com o brilho estéril das salas de reunião corporativas. Planos gerais evocam lapsos de tempo típicos de reality shows; sequências de dança, diegéticas e extradiegéticas, piscam com uma carga quase alucinatória. Quando Charli se apresenta, a tela crepita. Mesmo em fragmentos, sua presença ao vivo parece elétrica.

O que eleva “The Moment” além das piadas internas da indústria é sua precisão ao retratar a infraestrutura. Não se trata apenas de uma sátira sobre o ego das celebridades, mas sobre a “esteira de conteúdo”: parcerias de marca, ansiedade com publiposts, esquemas fintech direcionados (incluindo um hilariante e desastroso “cartão de crédito BRAT” verde-limão para zoomers queer) e a pressão constante para converter calor cultural em ativos monetizáveis. Quando alguém menciona “cartão de crédito BRAT”, é quase possível ouvir a reação negativa se formando online.

O dispositivo do falso documentário — personagens falando com a câmera, pedindo privacidade, murmurando “apaga isso” em meio ao caos — é usado com contenção admirável. Em vez de recorrer a metacomentários excessivamente cúmplices, Zamiri deixa as cenas respirarem. Celulares vibram sem parar, não como truque, mas como ruído ambiental; é assim que as estruturas de poder se comunicam hoje. A linha entre ficção e realidade é deliberadamente porosa. “Baseado em uma ideia original de Charli XCX”, anuncia o filme — e essa autoria importa. É uma sátira feita de dentro da máquina.

Fundamentalmente, “The Moment” se recusa a posicionar Charli como vítima pura ou vilã. Ela é cúmplice dos contratos que assina, mas cada vez mais alienada da arte que a lançou. O fio mais pungente não é o acordo com a Amazon ou a possível reação de influenciadores, mas a percepção gradual de que a velocidade da fama deixa pouco espaço para reflexão. O que acontece quando o ciclo do álbum termina? Quando a turnê acaba? Quem você é sem o espetáculo?

O roteiro também é surpreendentemente engraçado. Uma piada recorrente sobre provar a “identidade queer” de alguém para fins de marketing acerta com precisão ácida. Um stylist cancelando a lua de mel por causa de atrasos na turnê diz muito sobre devoção e cegueira. E o filme explora com prazer a dissonância geracional: assistentes que mal reconhecem Michael Jordan, executivos que se tornam bajuladores instantâneos, criativos negociando autenticidade em salas patrocinadas por Skims e Aperol Spritz.

Apesar da acidez, o filme pulsa com afeto — pelo pop, pelo caos, pela audácia de tentar fabricar significado em escala industrial. É ambicioso de um modo que a maioria dos documentários musicais sequer tenta ser. Em vez de reforçar o mito, “The Moment” o interroga. Em vez de glamourizar o estrelato, disseca o andaime que o sustenta.

Quando os créditos sobem, o que permanece não é cinismo, mas lucidez. “The Moment” entende que a fama contemporânea é ao mesmo tempo autoconsciente e autodevoradora, que a ironia não protege totalmente do esgotamento e que até uma “brat” pode duvidar quando as luzes se apagam.

Inteligente, estiloso e culturalmente afinado, “The Moment” não apenas captura uma era fugaz da cultura pop — ele a metaboliza.

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