Por Reinaldo Glioche
O cinema brasileiro às vezes surpreende pela diversidade temática, pela ousadia estética e pela capacidade de imaginar futuros para comentar inquietações do presente. “Cartório das Almas”, de Léo Bello, reúne essas qualidades em uma ficção científica de vocação contemplativa, que encontra em uma premissa inusitada o ponto de partida para uma reflexão sobre a existência, as renúncias e a solidão.
No universo do filme, a velhice simplesmente não acontece. As pessoas vivem eternamente, mas podem escolher encerrar a própria jornada. É nesse contexto que conhecemos Laura, funcionária de um cartório encarregado de registrar os motivos daqueles que decidem partir. Aos 126 anos, ela convive diariamente com as dores e as justificativas alheias, mas está contratualmente impedida de fazer a mesma escolha. A contradição entre o trabalho que exerce e a impossibilidade de decidir sobre o próprio destino constitui o eixo dramático da narrativa.
Gabriella Correia interpreta Laura com notável contenção, sem abrir mão de uma energia interior e de uma vulnerabilidade que emergem gradualmente. Sua composição evita transformar a personagem em uma figura excessivamente explicativa. Em vez de verbalizar continuamente suas angústias, Laura parece absorver o peso das experiências que testemunha. Há algo de silencioso nessa elaboração, como se cada despedida registrada no cartório também a obrigasse a confrontar as próprias dores, os desejos adiados e as renúncias acumuladas ao longo de mais de um século.
É dessa introspecção que “Cartório das Almas” extrai sua força. O filme não está particularmente interessado em construir uma sucessão de grandes acontecimentos, tampouco em oferecer respostas definitivas às questões que apresenta. Seu movimento é interior. A jornada de Laura se desenvolve por meio da observação, dos silêncios e da maneira como a personagem se relaciona com um mundo em que a eternidade, longe de representar uma promessa de felicidade, parece ter se convertido em mais uma forma de aprisionamento.
A escolha é coerente com a atmosfera visual concebida por Léo Bello. A Brasília pós-apocalíptica que serve de cenário à narrativa impressiona pelo fôlego visual. A fotografia, dominada por tons acinzentados, constrói uma paisagem de penumbra e isolamento, na qual a permanência da vida não elimina a sensação de esgotamento. O ambiente parece carregar as marcas de uma civilização que sobreviveu ao próprio fim, mas perdeu parte de sua capacidade de imaginar o que fazer com a existência que lhe resta.
A direção compreende que uma premissa dessa natureza precisa adquirir materialidade nas imagens. Não basta apresentar um mundo em que a morte deixou de ser uma consequência natural e se tornou uma escolha burocraticamente registrada. É necessário fazer com que o espectador experimente a estranheza desse universo, perceba seu esvaziamento e compreenda como a ausência de um limite definitivo pode alterar a relação das pessoas com o tempo.

Nesse sentido, o filme se aproxima de um ensaio visual. A contemplação não funciona apenas como uma opção de ritmo, mas como parte do próprio argumento. A composição dos espaços, a fotografia e a economia dos diálogos ajudam a traduzir uma sociedade em que a eternidade parece ter diluído o sentido da experiência. A Brasília de Bello não é somente um cenário futurista: é um espaço emocional, uma paisagem que espelha o isolamento de Laura e a melancolia de um mundo incapaz de encontrar na duração infinita uma razão suficiente para continuar.
Uma das imagens mais expressivas do filme é a transformação em pássaros daqueles que renunciam à vida. A ideia poderia facilmente resvalar no simbolismo ilustrativo, mas ganha força por sua dimensão poética e por sua tradução visual. A passagem da condição humana para a figura do pássaro introduz uma imagem de liberdade que contrasta com o peso burocrático da despedida. Há uma ironia delicada nessa transformação: em um mundo no qual a existência se tornou praticamente ilimitada, partir pode representar a possibilidade de escapar das amarras que a própria eternidade impõe.
“Cartório das Almas” não é um filme interessado em provocar catarse ou formular grandes conjecturas filosóficas sobre a existência. Sua ambição é mais discreta. Bello convida o espectador à introspecção e propõe que acompanhemos a jornada de Laura como uma investigação sobre os ciclos, as perdas e a dificuldade de reconhecer o momento em que uma etapa da vida precisa terminar. Mesmo em um universo no qual a morte deixou de ser inevitável, a experiência humana continua atravessada por limites emocionais.
A escolha de Brasília como cenário acrescenta outra camada à proposta. Capital do poder político brasileiro, a cidade carrega um imaginário associado às instituições, às disputas de influência e às contradições do Estado. Situá-la em um contexto pós-apocalíptico produz um contraste sugestivo: a arquitetura monumental, concebida para representar a organização e a permanência do poder, passa a integrar uma paisagem de desencanto. A cidade parece sobreviver àquilo que deveria justificar sua existência, convertida em cenário de uma melancolia que ultrapassa a trajetória individual da protagonista.
Essa dimensão política permanece periférica, sem se sobrepor ao drama de Laura. Ainda assim, contribui para a identidade do filme e reforça a capacidade do cinema brasileiro de utilizar espaços reconhecíveis para imaginar outras realidades. Em vez de recorrer a um futuro genérico, “Cartório das Almas” encontra na capital federal uma geografia carregada de significados, que dialoga com o isolamento e a desilusão de seus personagens.
A ficção científica aqui não depende de explicações grandiosas nem de reviravoltas para sustentar o interesse. É na observação paciente de Laura e na construção de um mundo visualmente expressivo que a narrativa descobre sua razão de existir.