Por Reinaldo Glioche
Vincent Lindon é daqueles atores capazes de mover mundos com um olhar, que transmitem intensidade com gestos tímidos, que cativa a audiência de pronto e que torna filmes medianos, bons e filmes bons, espetaculares. Todos esses predicados estão a serviço de “Brincando com Fogo”, filme que lhe rendeu a Copa Volpi de Ator no Festival de Veneza em 2024.
No longa de Dalphine Coulin e Muriel Coulin, Lindon vive um operário viúvo que cuida de seus dois filhos. Sua vida encontra-se naquele estágio de casa – trabalho, o que o afastou da atividade política que ainda mobiliza seus colegas de labuta. É nessa conjuntura que ele vê seu filho mais velho ser cooptado pelo discurso da extrema-direita. Félix (o ótimo Benjamin Voisin) sempre foi um garoto atencioso e ainda é bastante afetuoso com seu irmão mais novo, o prodígio Louis (Stefan Crepon), mas à medida que se embrenha em amizades discutíveis, se afasta do pai, melindrado com a influência que essas companhias exercem sobre seu primogênito.
“Brincando com Fogo” então estabelece uma dinâmica muito clara. No compasso da radicalização de Félix, sua relação com Pierre se deteriora. O jogo de contrastes – e o claro comentário político a respeito das circunstâncias da guinada à extrema-direita, especialmente entre os mais jovens, que se dá na Europa, mas especificamente na França -, enriquece a dramaturgia, que também se alimenta de elipses muito bem posicionadas pela realização.
O longa confia cegamente na capacidade de Lindon de dar combustão a seus parceiros de cena e a mesmerizar a audiência – algo que atinge nota máxima em um monólogo já perto do fim. Nas polivalências da paternidade e suas dores, “Brincando com Fogo” ainda revela outra camada, muito mais perene e identificável. Grande filme!