Reinaldo Glioche

Existe um mito no cinema, especialmente em Hollywood, de como determinados trabalhos podem desestabilizar os artistas. Embora tenha perdido força depois da excepcional construção de Joaquin Phoenix para o personagem, um dos chavões contemporâneos desse raciocínio é relacionar a morte de Heath Ledger a seu trabalho como Coringa em “Batman – O Cavaleiro das Trevas”.
Australiana como Ledger, Cate Blanchett disputa seu oitavo Oscar como atriz por “Tár”, que deve render a ela sua terceira estatueta, distinguindo-a em uma seletíssima lista. Nessa semana a atriz abordou em entrevista o reiterado desejo de aposentar-se das telas. Algo que outros ícones bem-sucedidos no Oscar como Gene Hackman, Daniel Day Lewis e Jack Nicholson fizeram.
“A vontade de se aposentar não é ocasional”, observa a atriz. Na entrevista à Vanity Fair, ela diz que atuar é como um caso de amor. “Você se apaixona e se desapaixona. Há trabalhos capazes de te seduzir de volta”.
Lydia Tár, uma personagem complexa, hostil e cheia de camadas, parece ser esse tipo de trabalho, que demanda uma energia tão criativa quanto caótica e que exaure o intérprete. Todd Field, seu diretor no longa, exortou à atriz a “tirar um tempo para si”, confidencia Cate antes de emendar que após o Oscar deve acatar o conselho.
Para-raio artístico
O cineasta dinamarquês Lars Von Trier costuma usar sua arte como expiação. O longa “Anticristo” (2009) foi desenvolvido durante uma crise depressiva. Jim Carrey, em outro polo, já confessou estar desgostoso de Hollywood. Embora não aposentado oficialmente, o ator dificilmente se envolve em algum projeto. Seus trabalhos foram rareando cada vez mais desde metade da década passada.
O ator Adrien Brody, premiado com o Oscar por seu papel em “O Pianista” (2002), disse que o trabalho no filme de Roman Polanski o deixou “profundamente deprimido”. Dakota Johnson revelou em entrevista que precisou de uma terapeuta para dar conta da demanda criativa de “Suspiria” (2018), excelente refilmagem do cult de Dario Argento por Luca Guadagnino.

Há, ainda, casos como o do filme “O Filho”, novo longa do diretor de “Meu Pai”, desde muito cedo cotado para o Oscar e que fracassou na temporada de premiações. Não por ser ruim, mas por ser pesado e pessimista demais. O filme trata de depressão e suicídio adolescente e o faz mais com comportamento observacional do que intervencionista.
Meta tristeza
Há filmes imbuídos de pesar e que buscam na audiência a angústia, o desconforto e a desorientação. Artistas, eminentemente atores e cineastas, se viabilizam como catalisadores nesse sentido. É algo que a arte tangencia desde seus primórdios, mas que o cinema sofisticou em matéria de experiência e conteúdo.