Por Reinaldo Glioche
Colleen Hoover entrou definitivamente no radar de Hollywood. Best-seller mundial, a autora viu suas obras ganharem adaptações cinematográficas em escala. É a vez de “Verity”, thriller erótico estrelado por Anne Hathaway, Dakota Johnson e Josh Hartnett, chegar aos cinemas. E, assim como acontece em outras adaptações de Hoover, há uma palavra que parece organizar tanto o conflito entre os personagens quanto a relação do filme com sua audiência: manipulação.
A manipulação, sobretudo a emocional, é um dos elementos mais interessantes da obra de Hoover. Seus livros podem apresentar fragilidades e certa demandar condescendência na maneira como abordam os conflitos, mas há uma eficiência inegável em sua capacidade de capturar o leitor. Suas histórias prendem a atenção, estimulam discussões sobre relacionamentos afetivos e, principalmente, sabem criar situações nas quais nossas certezas morais começam a se desfazer. Em “Verity”, essa qualidade se radicaliza.
Na trama, Verity, interpretada por Anne Hathaway, é uma escritora de enorme sucesso cujos livros são construídos a partir da perspectiva das vilãs. É uma inversão de valores que ajuda a explicar a popularidade da autora dentro da própria ficção. Quando Verity sofre um acidente e fica impossibilitada de continuar escrevendo, sua editora decide aproveitar o interesse do público e contratar uma ghostwriter para dar prosseguimento à série. É assim que surge Lowen, vivida por Dakota Johnson.

Antes mesmo de descobrir quem é Jeremy (Harnett), marido de Verity, Lowen tem com ele um encontro casual, de alguma vertigem e uma intimidade desencontrada. Esse encontro fortuito importa porque estabelece uma dinâmica que será mais questionada à frente.
Contratada, Lowen se muda para a residência do casal para trabalhar com anotações de Verity que lhe possibilitem escrever o livro. É durante esse processo que ela encontra um manuscrito.
Supostamente autobiográfico, o texto revela pensamentos, desejos e impulsos perturbadores de Verity em relação à família, ao marido, aos filhos e à própria carreira. A partir desse momento, o filme começa a construir um jogo de perspectivas no qual quase ninguém pode ser observado sem alguma desconfiança.
E Lowen é especialmente interessante porque sua motivação está longe de ser apenas romântica.
A aparente vulnerabilidade de Jeremy funciona como um ponto de atração. A casa, a vida confortável, o marido bonito e atencioso e, evidentemente, o sucesso literário de Verity também exercem fascínio. Lowen tem uma vida instável como escritora e como ela mesma pontua em determinado momento, ninguém jamais lhe disse “sua escrita é importante para mim”. Não parece haver exatamente ressentimento. Existe, antes, uma espécie de desejo por aquela vida. É nesse processo que Lowen começa a se apropriar da vida de Verity.
Um vestido importante dentro da construção visual do filme torna essa transformação particularmente evidente. Aos poucos, Lowen deixa de ser apenas a mulher que observa aquela família e começa a ocupar, física e simbolicamente, o lugar da escritora que deveria apenas substituir profissionalmente.
O movimento é importante porque “Verity” não está interessado apenas em descobrir quem é a verdadeira Verity. Ele quer descobrir quem é Lowen quando colocada diante da possibilidade de viver aquilo que sempre desejou.
E aqui surge uma das melhores características do filme: Hoover, o roteirista Nick Antosca e o diretor Michael Showalter também estão manipulando o espectador. Que se descobre investido na manipulação.
As perspectivas entram em conflito. O que parece verdade pode ser uma interpretação. O que parece confissão pode ser uma estratégia. E o que parece pureza pode esconder desejos menos nobres. A narrativa passa boa parte do tempo deslocando nossa simpatia entre os personagens.
O filme funciona particularmente bem em sua primeira metade, quando esse mecanismo está sendo construído. Na segunda, porém, algumas costuras narrativas começam a ficar mais aparentes. As reviravoltas nem sempre encontram sustentação suficiente e o ritmo perde um pouco de força. É necessário conceder ao filme certa indulgência para aceitar algumas soluções, sobretudo porque o mistério, em determinado momento, deixa de ser exatamente um mistério. Ainda assim, há interesse na maneira como “Verity” devassa seus personagens.

Lowen talvez seja o melhor exemplo. Durante boa parte da narrativa, ela parece representar uma espécie de ingenuidade, uma personagem relativamente pura cercada por pessoas moralmente mais comprometidas. Aos poucos, porém, essa percepção começa a mudar. Continuamos reconhecendo nela características que nos aproximam — virtudes e defeitos —, mas a identificação já não é tão confortável.
Quando todos passam a estar sob o signo da dúvida, o filme encontra sua melhor dimensão.
O erotismo, por outro lado, acaba ficando um pouco em segundo plano. E isso representa uma fragilidade estrutural, porque, para que os conflitos de Lowen ganhassem maior intensidade, a dimensão erótica deveria ser mais contundente. O desejo é importante para o jogo de poder proposto pelo filme, mas o comedimento da realização presta um desserviço nesse sentido.
Ainda assim, “Verity” encontra seu público. Pode agradar tanto aos leitores fiéis de Colleen Hoover quanto àquele espectador que talvez esteja procurando, em uma noite qualquer, um filme adulto com mistério, elenco atraente, relações ambíguas e alguma dose de perigo — uma espécie de Supercine.
Calculadamente cafona, “Verity” encontra prazer justamente naquilo que sua autora parece dominar tão bem: fazer com que o espectador continue olhando, desconfiando e, sobretudo, tentando descobrir se está sendo enganado.