Por Reinaldo Glioche
O ano é 2026. Em plena era das propriedades intelectuais, das franquias intermináveis e do atrito cada vez mais evidente entre cinema e streaming, Brad Pitt e Tom Cruise continuam fazendo uma coisa que parecia estar desaparecendo de Hollywood: levando pessoas ao cinema simplesmente pelo peso de seus nomes.
São, talvez, duas das últimas grandes estrelas de cinema em atividade. E os dois estão lançando filmes neste momento.
Na semana passada, Brad Pitt chegou aos cinemas com “Coração Selvagem”, um filme que depende quase integralmente de sua presença. Ele interpreta um veterano militar que encontra na natureza uma espécie de refúgio e tem no cachorro que o acompanha seu principal companheiro desde os tempos de guerra. É um filme de sobrevivência, no qual Pitt aparece em praticamente todas as cenas, mas também é uma história de amor — uma ode ao vínculo afetivo entre um homem e seu cachorro.
Há algo de particularmente interessante nessa escolha. “Coração Selvagem” é o segundo filme consecutivo em que Brad Pitt parece apostar deliberadamente em si mesmo. Foi assim no ano passado com “F1 – O Filme”, produção construída ao redor de seu magnetismo, e é assim novamente agora. Em uma indústria cada vez mais dependente do reconhecimento imediato de marcas e personagens, Pitt se coloca como a própria marca.

Tom Cruise, por outro lado, passou boa parte da última década ocupado com “Missão: Impossível”, franquia que, até segunda ordem, chegou ao fim no ano passado. Agora, ele retorna aos chamados filmes “sérios” com “Digger”, novo trabalho do mexicano Alejandro González Iñárritu, duas vezes vencedor do Oscar. O longa chega aos cinemas do mundo em 1º de outubro.
Pouco se sabe sobre o filme, cercado deliberadamente por mistério. O que se sabe é que Cruise interpreta o personagem-título, um bilionário envolvido em uma catástrofe ambiental que pode significar o fim do mundo. Há ecos de ficção científica, de “Doutor Fantástico” (1964), de Stanley Kubrick, cineasta com quem Cruise trabalhou em “De Olhos Bem Fechados”, no fim dos anos 1990.
E talvez seja justamente aí que a coincidência entre os dois se torne mais interessante.
Porque Brad Pitt e Tom Cruise pertencem a uma geração de atores que ajudou a definir o que Hollywood entendia como estrela de cinema. Nos anos 1990, quando se consolidaram como astros, eles estrelavam uma quantidade impressionante de produções que hoje seriam classificadas como filmes de médio orçamento, embora, naquele contexto, fossem concebidas com ambições de grandes blockbusters.
Cruise esteve em “A Firma”, “Dias de Trovão”, “Jerry Maguire”, “De Olhos Bem Fechados” e “Questão de Honra”. Em 1994, dividiu com Brad Pitt “Entrevista com o Vampiro”, de Neil Jordan.
Pitt, por sua vez, passou por “Os Doze Macacos”, “Seven”, “Lendas da Paixão”, “Inimigo Íntimo”, “Encontro Marcado” e “Sete Anos no Tibete”. São filmes muito diferentes entre si, mas que ajudaram a construir uma aura em torno do ator. Em uma era em que franquias eram um conceito esparso, esses eram filmes que chegavam ao público porque havia interesse em ver aquele ator interpretando aquela história. Três décadas depois, alguma coisa permanece.

“Digger”, por exemplo, é um projeto cercado de perguntas. É estranho, pouco explicado e difícil de enquadrar a partir das informações disponíveis. Ainda assim, a campanha de marketing pode se apoiar em uma certeza: Tom Cruise está no centro dela.
Isso revela algo importante sobre a própria indústria. Hollywood pode ter mudado profundamente, mas ainda existe valor comercial na figura do astro. Em uma época na qual personagens, universos ficcionais e propriedades intelectuais parecem ter se tornado mais importantes do que os intérpretes que os encarnam, Brad Pitt e Tom Cruise continuam demonstrando que star power também pode ser uma propriedade intelectual. Essa resistência é comovente!
Ambos já estão na casa dos 60 anos e continuam possuindo força de atração suficiente para sustentar projetos que, em outra circunstância, talvez encontrassem mais dificuldade para chegar às salas de cinema. Não necessariamente porque seus filmes sejam garantias de sucesso, mas porque seus nomes ainda despertam uma curiosidade que antecede qualquer sinopse.

Para quem observa o cinema como indústria, isso é um fenômeno digno de análise. Para quem gosta da história do cinema, é uma espécie de testemunho da permanência de um modelo de estrelato que parecia destinado a desaparecer.
E para o espectador — aquele que não precisa de uma justificativa muito sofisticada para comprar um ingresso — Brad Pitt e Tom Cruise continuam significando uma coisa muito específica: cinema.