Durante dezesseis anos à frente do governo alemão, Angela Merkel esteve no centro de algumas das decisões mais importantes da política internacional do século XXI. Agora, em “Liberdade”, que chega às livrarias brasileiras pela Editora Planeta, a ex-chanceler reúne pela primeira vez suas memórias em um relato que vai da infância no lado oriental da Alemanha ao fim de sua trajetória política. A obra apresenta uma perspectiva pessoal sobre o caminho que fez dela a primeira mulher a ocupar o cargo mais alto da política alemã.
Nascida em Hamburgo, em 1954, Merkel cresceu na Alemanha Oriental, onde estudou Física e concluiu o doutorado. A entrada na política veio com a queda do Muro de Berlim: em 1990, foi eleita para o Bundestag. Ocupou o Ministério para Mulheres e Juventude entre 1991 e 1994 e, em seguida, a pasta do Meio Ambiente, Proteção da Natureza e Segurança Nuclear, até 1998. De 2000 a 2018, presidiu a União Democrata-Cristã (CDU). Em 2005, tornou-se chanceler, cargo que deixou em 2021.

No livro, ela guia o leitor pelos bastidores da diplomacia em Berlim, Bruxelas e outros centros de poder, mostrando como eram conduzidas negociações de alta complexidade. Além do cotidiano da Chancelaria, compartilha reflexões sobre o processo de decidir em meio a crises, disputas e transformações constantes.
As memórias também ajudam a entender questões que seguem moldando o cenário geopolítico: a dependência energética alemã do gás russo, o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, os desafios da política migratória europeia e as mudanças na cooperação internacional. Tudo é contextualizado a partir da experiência direta de uma das principais lideranças das últimas décadas.
Um legado de crises e controvérsias
O balanço da era Merkel é marcado por contrastes. Seu governo conduziu a Alemanha durante a crise financeira de 2008, a crise da dívida na zona do euro e a pandemia de covid-19, consolidando a imagem de gestora pragmática e cautelosa, em sintonia com a formação científica. Foi peça central na articulação europeia, com papel decisivo em respostas coletivas como o fundo de recuperação econômica pós-pandemia. Em 2011, após o acidente nuclear de Fukushima, anunciou a saída gradual da Alemanha da energia nuclear, decisão que segue debatida.
Em 2015, ao manter as fronteiras abertas a centenas de milhares de refugiados, principalmente da Síria, ficou associada à frase “Wir schaffen das” (“Nós conseguimos”), gesto elogiado por sua dimensão humanitária e criticado por setores que apontam pressões sociais e o fortalecimento da extrema direita.
Críticos também questionam a aproximação energética com a Rússia, simbolizada pelo gasoduto Nord Stream, que deixou o país vulnerável após a invasão da Ucrânia. Defensores lembram que ela liderou, em 2014, as sanções à Rússia após a anexação da Crimeia e mediou os acordos de Minsk.
“Liberdade” propõe uma discussão sobre os limites e as responsabilidades da ação política em um mundo cada vez mais complexo, reafirmando o diálogo, a democracia e a liberdade como pilares da vida pública.