Redação Culturize-se
Há uma operação artística particularmente interessante no trabalho de Brenda Guimarães: ela não transforma apenas resíduos em objetos. Ela transforma o nosso olhar sobre os resíduos. É nessa mudança de perspectiva que o Bekka Studio encontra sua dimensão mais potente. Potes de amaciante, embalagens de shoyu, rolos de papel higiênico, caixas de ovos e pedaços de papelão deixam de ser coisas sem valor para assumir uma nova condição. Elas tornam-se matéria, superfície, volume e, finalmente, objeto de desejo.
A partir da perspectiva de um artista plástico, poderíamos chamar esse procedimento de uma espécie de “lixo décor” — não como uma categoria estética fechada, mas como uma provocação. O que acontece quando aquilo que foi concebido para desaparecer passa a ocupar um lugar de destaque dentro de uma casa? Quando o que deveria estar na lixeira ganha uma prateleira, uma parede ou, no futuro, uma sala inteira?

O trabalho de Brenda parte justamente dessa inversão. As embalagens são trituradas, colocadas de molho e transformadas em polpa. Revestidas e remodeladas com uma massa semelhante à produzida a partir de caixas de ovos e papelão, elas perdem sua identidade industrial original. O objeto deixa de carregar a função para a qual foi fabricado e passa a existir por sua forma.
É um princípio fundamental da arte contemporânea: retirar uma coisa de seu contexto para atribuir-lhe outro significado. Marcel Duchamp fez isso ao transformar objetos cotidianos em ready-mades. Artistas ligados à assemblage, à arte povera e às práticas de reciclagem radical também compreenderam que a matéria considerada banal ou descartável poderia carregar uma potência poética justamente por sua condição marginal.
Brenda, evidentemente, não está simplesmente repetindo essas operações históricas. Seu interesse está em outra camada: aproximar a arte do design e fazer com que a sustentabilidade deixe de ser apenas um discurso para tornar-se uma experiência estética.
Existe ainda uma contradição produtiva na origem do Bekka Studio. Brenda conheceu a delicadeza do fazer manual no ateliê de Naura Franco, em Fortaleza, trabalhando com bordados e tecidos. Depois experimentou o extremo oposto: a indústria da moda, com sua lógica de escala e reprodução. Produzir milhares de exemplares de uma mesma peça fez nascer o incômodo que posteriormente a levou de volta ao gesto artesanal.
É nesse ponto que o lixo se torna conceito. O resíduo é também uma consequência da produção em excesso. Ao transformar embalagens em peças únicas, Brenda não apenas reaproveita materiais, mas confronta, em pequena escala, a lógica industrial que conheceu por dentro.

Cada objeto leva semanas para existir. Não há linha de montagem, estoque ou repetição infinita. Há tempo, mão, matéria e acaso. E talvez esteja justamente aí a sofisticação do “lixo décor”: fazer com que aquilo que nossa cultura aprendeu a descartar rapidamente seja obrigado a permanecer diante dos nossos olhos.
Quando o lixo deixa de ser lixo e passa a ser mobiliário, a pergunta já não é sobre reciclagem. É sobre valor. E, sobretudo, sobre quem decide o que merece permanecer.