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Heranças da violência movem a excepcional 1ª temporada de "Fúria"

Redação Culturize-se

Lançada sem alarde no fim de julho no disney+, a minissérie “Fúria” rapidamente se tornou um dos fenômenos mais comentados do ano dentro do gênero suspense. Criada e produzida por Elizabeth Meriwether — conhecida por “New Girl”, “Morrendo por Sexo” e “The Dropout” — a trama estrelada por Emmy Rossum e Lola Petticrew recebeu o selo Certified Fresh do Rotten Tomatoes com 100% de aprovação da crítica no lançamento, índice que se manteve sólido em 98% ao longo da temporada. Diante do sucesso, o Disney+ já confirmou a renovação para uma segunda temporada.

A série acompanha Alice Black (Emmy Rossum), agente do FBI que investiga uma sequência de mortes misteriosas e descobre estar atrás de Catherine (Lola Petticrew), uma assassina em série calculista. À medida que a caçada avança, as duas mulheres — caçadora e caça — passam a se entrelaçar de formas inesperadas, borrando os limites entre justiça e vingança. No caminho, Alice é forçada a confrontar traumas do próprio passado, num enredo que ganhou força justamente por recusar respostas fáceis.

Emmy Rossum está espetacular como uma agente do FBI marcada por traumas de violência | Fotos: Divulgação

Livremente inspirada no filme “O Mistério da Viúva Negra”, de 1987, estrelado por Debra Winger, “Fúria” nasceu de uma ideia simples, mas poderosa, segundo Rossum, também produtora executiva da série: “A proposta era: uma agente do FBI caçando uma serial killer mulher. Eu já me interessei imediatamente.” Para a atriz, o material original oferecia um ponto de partida rico: “Começa muito no estilo gato e rato, e essa personagem está nesse ambiente de trabalho muito misógino, todo mundo duvidando dela — e isso parece relevante, até hoje. Uma pena termos que dizer isso.” Segundo ela, é na segunda metade da trama original que a história se transforma “numa peça íntima sobre a conexão entre essas duas mulheres” — elemento que se tornou central na adaptação para a TV.

Para Meriwether, no entanto, o desafio de escrever um suspense pela primeira vez trazia certo temor. “Eu estava com muito medo. Tipo, como eu faço isso?”, contou a criadora. A solução veio pela pesquisa: “Fiquei muito fascinada em entender qual seria a história de uma serial killer mulher, e a psicologia por trás disso. Conversei com um detetive de homicídios, li livros sobre assassinos em série e falei com uma promotora e alguns agentes do FBI.” Segundo ela, quanto mais conversava com essas fontes, menos intimidador se tornava escrever “um suspense entre aspas — porque percebi que essa é uma história sobre pessoas”.

Essa pesquisa também moldou a abordagem da série em relação a um tema sensível: a forma como mulheres vítimas de violência são tratadas pelo sistema de justiça. Em entrevista à Vulture, Meriwether foi direta sobre a intenção por trás da construção das personagens: “O que eu queria mesmo era mostrar as várias formas que a violência pode afetar a vida de uma mulher e tentar tirar essa cobrança de ‘vítima perfeita’. O sistema de justiça exige isso de muitas mulheres: que elas contem uma história e mostrem um lado que seja 100% inocente o tempo todo — e, às vezes, nem isso funciona.” Segundo a criadora, a ideia era “complicar essa visão e mostrar que mulheres que passaram por violência não viram necessariamente ‘boas vítimas'”.

Diferente do filme original, em que a motivação da assassina praticamente não é explicada, a série decidiu aprofundar a psicologia de Catherine — ainda que sem entregar respostas simples. “Não há motivações no filme, o que acho muito interessante para a época. Esse filme não seria feito hoje em dia, porque há uma necessidade dos executivos de explicar tudo sobre por que as pessoas fazem as coisas que fazem”, avaliou Meriwether, que recorreu à expressão “poema tonal” para descrever o clima do longa original. Um dos personagens mais complexos de escrever, segundo ela, foi Emma Easton (Hope Davis), filha do predador Jay Easton — construção inspirada em casos reais de mulheres que protegem homens abusadores. “Ainda não acho que respondemos as perguntas que tenho sobre algumas dessas mulheres ao redor desses homens”, admitiu a criadora. “Tenho muitas perguntas sobre as mulheres que os protegem, e não acho que chegamos a uma resposta definitiva.”

Ao longo da temporada, a relação entre Alice e Catherine se torna cada vez mais ambígua. Segundo Rossum, essa aproximação reflete uma identificação crescente da protagonista com a mulher que persegue: “Ao deixar Catherine ir, ela sabe que está correndo um grande risco, mas sabe que precisa fazer isso. […] Quanto mais perto ela chega de Catherine, mais desperta dentro dela algo que foi reprimido, de forma subconsciente e intencional.” Para a atriz, o desejo de Alice de resolver o caso vai além do senso de justiça: também está ligado a um segredo pessoal que a atormenta desde o primeiro episódio.

O clímax da temporada, no episódio final, lançado em 31 de agosto, revela esse segredo: uma gravação de abuso feita quando Alice tinha apenas 14 anos, guardada por Jay Easton, o predador investigado pela série. A cena final, em que Catherine pergunta a Alice se ela gostou da sensação de matar Easton, termina com um sorriso ambíguo da protagonista — imagem que resume a proposta da série de recusar julgamentos morais simples. Questionada sobre como chegaram a essa escolha, Meriwether contou que o gesto já estava previsto no roteiro: “Quando vi o primeiro corte, pensei: ‘isso é incrível’. Aquele olhar rápido. Então sim, a Emmy acertou. E eu sinceramente nunca olhei para uma tomada diferente.”

Fora das telas, “Fúria” também reflete uma mudança mais ampla na indústria. Um estudo da San Diego State University, citado pelo New York Times, apontou que 36% das séries de streaming produzidas entre agosto e junho tiveram criação feminina, enquanto 32% contaram com ao menos uma diretora por temporada. Nicole Kassel, diretora vencedora do Emmy por “The Americans”, resume essa transformação: “Esse raramente é o caso agora. Produtores e roteiristas estão se esforçando mais em se certificar de que pessoas de diferentes gêneros e etnias estão por trás das câmeras.”

Scoot McNairy em cena com Rossum

Esse movimento também se reflete em outros títulos recentes centrados em protagonistas femininas, como “The Handmaid’s Tale” e sua continuação “Os Testamentos”, o true crime “Não Diga Nada” — também estrelado por Lola Petticrew —, além de produções internacionais como os k-dramas “Terra do Ouro” e “Uma Loja Para Assassinos”, e a brasileira “Vidas Bandidas”.

Com a segunda temporada já confirmada, “Fúria” consolida-se como um dos casos mais bem-sucedidos recentes do thriller televisivo — um gênero que, segundo seus próprios criadores, encontrou nova força justamente ao ser recontado sob uma perspectiva feminina, sem medo de complicar as próprias personagens.

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