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Marilia Pellegrini: o traço brasileiro que começa a conquistar o mundo

Redação Culturize-se

Há arquiteturas que procuram dominar a paisagem. A de Marilia Pellegrini parece preferir o caminho oposto: estabelece uma espécie de negociação com ela. Jardins, árvores, luz natural, materiais e espaços internos não aparecem como elementos acrescentados ao projeto depois que a construção está pronta. Participam da concepção desde o início. É uma característica que ajuda a explicar por que o trabalho da arquiteta paulistana começa a despertar atenção fora do Brasil.

A confirmação mais recente veio da Wallpaper, que incluiu Pellegrini no Architects’ Directory 2026, seleção anual que reúne 30 escritórios promissores de diferentes partes do mundo. A publicação britânica apresenta seu estúdio como uma prática de arquitetura conduzida pelo artesanato e pela integração entre arquitetura, interiores e mobiliário.

A escolha não parece casual. Em projetos como a Casa das Palmeiras, em Alphaville, Pellegrini desenvolve uma arquitetura de formas brancas e baixas, curvas precisas e grandes aberturas para o jardim. A residência praticamente se volta para dentro, criando um refúgio em meio à vegetação. Pedra, madeira e uma paleta neutra completam uma composição que transmite sofisticação sem recorrer ao exibicionismo.

Foto: Divulgação

É justamente essa contenção que parece definir seu trabalho. A arquiteta não precisa produzir uma arquitetura ostensivamente brasileira para que sua origem esteja presente. A relação com o clima, com a vegetação, com a luz e com a tradição do desenho de mobiliário brasileiro surge de maneira mais sutil.

Sua formação ajuda a entender essa síntese. Depois de estudar arquitetura na UFMG, Pellegrini trabalhou com Gustavo Penna e Rene Gonzalez e, posteriormente, passou quase uma década no Studio Arthur Casas, onde chegou à direção. Em 2015-2016, consolidou seu próprio estúdio, em São Paulo.

Um dos projetos que ajudaram a projetar seu nome foi a Casa Contêiner, apresentada na Casacor São Paulo em 2019. Com apenas 60 metros quadrados, a residência utiliza dois contêineres marítimos e transforma uma estrutura associada à rusticidade industrial em um espaço sofisticado e minimalista. O projeto foi publicado internacionalmente pelo ArchDaily.

A experiência é reveladora porque Pellegrini não parece interessada em transformar a sustentabilidade em manifesto estético. O reaproveitamento está ali, mas a preocupação fundamental é produzir uma boa arquitetura. O resultado é uma casa em que o contêiner praticamente desaparece sob o acabamento e a organização espacial.

A Casa 1111, por sua vez, aprofunda sua relação com a natureza. Em vez de disputar protagonismo com o jardim, a residência estabelece uma continuidade entre interior e exterior. Esse princípio se tornou uma espécie de assinatura da arquiteta.

Agora, com a indicação da Wallpaper, o trabalho ganha uma vitrine internacional particularmente importante. Mais do que uma chancela de prestígio, a seleção sugere que Pellegrini começa a ser observada como parte de uma nova geração de arquitetos brasileiros capazes de dialogar com referências locais sem ficar presos a elas.

Foto: Renato Navarro/Divulgação

Talvez esteja aí o aspecto mais interessante de sua arquitetura. Marilia Pellegrini não parece buscar uma imagem. Busca uma experiência. Suas casas podem ser sofisticadas, mas raramente são ostensivas; podem ser rigorosas, mas não são frias. Entre a geometria e a vegetação, entre o desenho e o conforto, ela vem construindo uma linguagem própria.

E é justamente quando essa linguagem deixa de parecer exclusivamente brasileira e passa a ser reconhecida internacionalmente que sua arquitetura começa, paradoxalmente, a revelar ainda mais claramente de onde veio.

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