Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

"La La Land", o musical que fez Hollywood voltar a sonhar

Redação Culturize-se

Poucos filmes da década de 2010 conseguiram atravessar o tempo com a mesma elegância de “La La Land: Cantando Estações”. O relançamento da obra nos cinemas, dez anos após sua estreia, não atende apenas ao impulso nostálgico que domina a indústria cinematográfica. Ele confirma que o musical dirigido por Damien Chazelle deixou de ser apenas um sucesso de temporada para se tornar uma referência cultural capaz de dialogar com públicos muito diferentes daqueles que tradicionalmente consumiam o gênero.

Quando chegou aos cinemas em 2016, “La La Land” parecia uma aposta improvável. Musicais haviam perdido espaço nas grandes produções hollywoodianas, frequentemente tratados como um formato restrito aos fãs mais dedicados. Chazelle fez justamente o movimento contrário: em vez de modernizar radicalmente o gênero, mergulhou em sua tradição. O resultado foi um filme que homenageia clássicos como “Cantando na Chuva”, “Os Guarda-Chuvas do Amor” e os musicais estrelados por Gene Kelly e Fred Astaire, mas sem soar preso ao passado.

A chave está na maneira como o diretor utiliza o musical não como espetáculo permanente, mas como extensão dos sentimentos dos personagens. As canções interrompem a realidade apenas quando as palavras deixam de ser suficientes. Mesmo quem normalmente rejeita personagens cantando em cena encontra em “La La Land” uma experiência emocional antes de qualquer convenção estética. A música deixa de ser um obstáculo para se tornar linguagem.

Essa acessibilidade ajudou o filme a romper uma barreira que poucos musicais contemporâneos conseguiram superar. Em vez de conquistar apenas admiradores do gênero, encontrou uma audiência ampla, especialmente entre espectadores acostumados ao cinema romântico tradicional. Grande parte desse mérito está na química entre Emma Stone e Ryan Gosling, que transformam Mia e Sebastian em personagens profundamente humanos justamente porque nunca são idealizados.

Foto: divulgação

O romance que vivem também foge da estrutura clássica das histórias de amor hollywoodianas. “La La Land” não acredita que amar alguém seja suficiente para garantir um final feliz. O filme compreende que sonhos profissionais, ambições individuais e circunstâncias da vida podem afastar pessoas que continuam se amando. É uma visão madura, melancólica e surpreendentemente realista, responsável por um dos desfechos mais lembrados do cinema recente.

A sequência final, construída como um grande número musical imaginário, talvez sintetize melhor do que qualquer diálogo a essência do longa. Não se trata de mostrar aquilo que aconteceu, mas aquilo que poderia ter acontecido. É uma fantasia construída sobre a ideia do amor platônico — ou, mais precisamente, do amor interrompido pelas escolhas que definem uma existência. Poucos finais recentes conseguiram emocionar tanto justamente porque recusam o conforto da resolução perfeita.

Los Angeles também desempenha papel decisivo nessa narrativa. Mais do que cenário, a cidade é um personagem. Chazelle transforma avenidas congestionadas, observatórios, clubes de jazz e colinas iluminadas em espaços quase míticos, apresentando uma versão idealizada da capital do entretenimento. É uma Los Angeles romântica, onde o glamour convive permanentemente com a frustração de milhares de artistas que tentam transformar talento em oportunidade.

Essa visão dialoga diretamente com a tradição do cinema clássico americano. Hollywood sempre gostou de contar histórias sobre si mesma, mas “La La Land” evita tanto o cinismo quanto a ingenuidade. Reconhece que a indústria alimenta sonhos enquanto frequentemente destrói aqueles que tentam alcançá-los. Mia e Sebastian representam justamente essa contradição.

O reconhecimento da crítica confirmou a dimensão do fenômeno. O filme recebeu 14 indicações ao Oscar — igualando o recorde histórico de “A Malvada” e “Titanic” — e venceu seis estatuetas, incluindo Melhor Direção para Damien Chazelle, que, aos 32 anos, tornou-se o cineasta mais jovem a conquistar o prêmio. Emma Stone também levou o Oscar de Melhor Atriz, enquanto a trilha sonora de Justin Hurwitz e a canção City of Stars ajudaram a consolidar a identidade musical da obra.

Mesmo o histórico equívoco na cerimônia do Oscar de 2017, quando “La La Land” foi anunciado erroneamente como Melhor Filme antes da confirmação da vitória de “Moonlight”, acabou incorporado à memória coletiva do cinema contemporâneo, transformando o longa em protagonista de um dos momentos mais emblemáticos da história da premiação.

Uma década depois, seu legado permanece evidente. O sucesso comercial e artístico abriu espaço para que Hollywood voltasse a investir em musicais de grande orçamento e demonstrou que ainda existe público para narrativas que privilegiam emoção, música e linguagem visual sofisticada. Mais importante do que isso, provou que um musical não precisa convencer o espectador a gostar do gênero; basta convencê-lo a acreditar nos personagens.

Talvez seja essa a razão pela qual “La La Land” continua encontrando novas plateias. Sob a aparência de um musical exuberante, existe um filme sobre escolhas, renúncias e lembranças. Um filme que entende que alguns sonhos se realizam, outros ficam pelo caminho e que certos amores, justamente porque não deram certo, permanecem perfeitos na memória. Dez anos depois, continua sendo impossível assistir àquele último olhar entre Mia e Sebastian sem imaginar como seria a vida caso a música tivesse seguido outro compasso.

Isso pode te interessar

Cinema

"La La Land", o musical que fez Hollywood voltar a sonhar

Longa volta aos cinemas para reafirmar seu lugar como um dos filmes mais influentes da década

Literatura

Flipelô começa em Salvador com música, poesia e grande participação

“Feira é espaço de representatividade cultural”, diz escritora baiana

Música

Dasha inicia nova fase da carreira com o lançamento de "Memo"

Música

'NIMRODS' faz do Green Day o protagonista de sua própria mitologia

Nova trilha e filme sacramentam celebração da carreira do trio punk

Newsletter Gratuita

Tenha o melhor da cultura na palma da sua mão. Assine a newsletter gratuita de Culturize-se. Todos os dias pela manhã na sua caixa de e-mail.