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Com "Mother Mary", a ambição visionária de David Lowery esbarra em seus próprios mistérios

Por Reinaldo Glioche

Há filmes que erram por medo e filmes que erram por ousadia. “Mother Mary”, novo trabalho do cineasta David Lowery, pertence inequivocamente à segunda categoria e é justamente essa coragem que torna sua derrota tão mais interessante do que o sucesso de tantas produções mais cautelosas.

Dirigido e escrito por Lowery, o mesmo autor de “Sombras da Vida” e “O Cavaleiro Verde”, o longa acompanha a estrela pop Mother Mary (Anne Hathaway), uma diva com contornos evidentes de Lady Gaga, que reencontra sua ex-melhor amiga e estilista Sam Anselm (Michaela Coel) para criar o vestido de um show de retomada de carreira. O reencontro reabre feridas antigas e desencadeia uma trama que mistura drama sobre fama e criação com elementos de horror sobrenatural — o filme bebe tanto de “O Exorcista” quanto da iconografia de Lady Gaga, um hibridismo que, ao menos no papel, é fascinante.

Michaela Coel mostra domínio no confronto transitando entre a aflição e a empatia, enquanto a personagem de Hathaway cresce em força justamente ao se submeter à fúria destrutiva de Sam, sendo crível tanto como símbolo ferido quanto como mulher no topo do mundo. É esse duelo de atuações — cru, físico, quase telepático — que sustenta a primeira metade do filme.

O problema está exatamente no que vem depois. Lowery, fiel ao seu gosto por metáforas expandidas ao literal, transforma o drama psicológico entre as duas mulheres em algo cada vez mais abstrato e esotérico — um fantasma vermelho de tecido que parece unir as personagens, sinais de possessão, uma mitologia que nunca se deixa decifrar por completo. O filme acaba se tornando o longa mais desconcertantemente pretensioso sobre uma estrela pop desde “Vox Lux”, de Brady Corbet, mergulhando em um “beco sem saída” de significados cósmicos que, ao fim, não significam nada para além de um melodrama gótico mais preocupado com atmosfera de videoclipe do que com complexidade emocional real.

Foto: Divulgação

Ainda assim, seria injusto reduzir “Mother Mary” a um fracasso. Visualmente, o filme é arrebatador — a fotografia de Andrew Droz Palermo e Rina Yang, aliada à trilha original que reúne nomes como Jack Antonoff, Charli XCX e FKA twigs, cria uma textura sonora e visual rara no cinema autoral contemporâneo.

Leia também: em novo filme da A24, Anne Hathaway assume papel de estrela pop e participa da trilha

Conceitualmente, “Mother Mary” é o tipo de obra que só um cineasta com carta branca poderia fazer: cheia de ideias, texturas e talento em estado bruto, mas incapaz de amarrar suas próprias ambições em algo que se sustente até os créditos finais. Um quase-grande-filme, derrotado não pela falta de visão, mas pelo excesso dela.

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