Por Reinaldo Glioche
Escondida no catálogo do Disney+, “Alice and Steve” surge como uma das séries mais interessantes e, sobretudo, mais genuinamente engraçadas do ano. A produção — marcada pelo humor inglês característico, de constrangimento calculado e observação social precisa — transforma uma premissa aparentemente simples em um estudo complexo sobre amizade, vínculos afetivos e os limites morais e emocionais que sustentam relações humanas.
A trama acompanha Alice e Steve, amigos de longa data cuja relação sempre pareceu sólida o bastante para dispensar qualquer leitura romântica. Existe entre eles uma intimidade rara, construída ao longo de décadas, marcada por cumplicidade e afeto contínuo — um tipo de conexão que, em um primeiro olhar, desafia a expectativa social de que homens e mulheres heterossexuais não podem sustentar uma amizade tão profunda sem que haja uma subjacente tensão amorosa. A série, nesse sentido, não apenas naturaliza essa amizade como a trata como algo mais maduro do que o habitual triângulo amor-desejo-romance que costuma organizar narrativas do tipo.

Esse equilíbrio, no entanto, é quebrado quando Steve inicia um relacionamento com Izzy, filha de Alice. O agravante não está apenas na diferença geracional ou no choque de expectativas, mas no fato de Steve ser uma presença histórica na vida da família — alguém que acompanhou a infância da própria Izzy. A decisão de ambos de considerar um vínculo amoroso atua como detonador dramático e emocional, reorganizando completamente o núcleo da narrativa.
A partir desse evento, a série se estrutura como uma dissecação do colapso de um ecossistema afetivo. Alice, inicialmente, reage com raiva e desorientação. O vínculo com Steve — até então uma âncora emocional — se transforma em campo de batalha. O impacto não se restringe à amizade: sua relação com a filha também sofre fraturas profundas, e até o casamento entra em estado de instabilidade. O que a série explora com precisão é como uma única decisão afetiva pode irradiar consequências em múltiplas camadas de uma rede familiar.
Mais do que uma narrativa sobre “um homem entre mãe e filha”, “Alice and Steve” se interessa por uma questão mais espessa: o que significa responsabilidade afetiva quando relações pré-existentes entram em conflito com novas possibilidades de desejo? É possível sustentar uma história amorosa quando ela reconfigura violentamente o passado de todos os envolvidos? A série evita respostas fáceis ou julgamentos morais simplificadores, preferindo manter seus personagens em zonas cinzentas de decisão e arrependimento.
Um dos méritos mais notáveis da produção é justamente o modo como distribui empatia entre as três figuras centrais. A perspectiva de Izzy não é reduzida a um vetor de conflito: ela também é tratada como sujeito de desejo, com suas próprias contradições e decisões difíceis. Essa abordagem impede que a narrativa se feche em moralismos previsíveis e amplia o alcance dramático da história.
O humor, por sua vez, nunca é ornamental. Ele surge do desconforto, da inadequação das situações e da incapacidade dos personagens de traduzirem racionalmente aquilo que estão sentindo. Essa é uma marca típica da tradição britânica de comédia: rir não apesar da dor, mas através dela. E é justamente essa camada cômica que impede a série de se tornar excessivamente pesada, mesmo quando trata de temas delicados como traição emocional, rupturas familiares e redefinições de vínculo.

À medida que os episódios avançam, “Alice and Steve” constrói um desfecho coerente com o que propõe desde o início: não há resolução limpa para conflitos afetivos dessa natureza. O que há é uma espécie de acomodação imperfeita, uma tentativa de reorganizar afetos depois do dano, reconhecendo que erros, sobretudo aqueles cometidos na tentativa de acertar, fazem parte da tessitura das relações humanas.
No fundo, a série funciona como uma defesa da complexidade emocional em um tempo de julgamentos rápidos e leituras simplificadas de comportamento. Ela valoriza a capacidade de entender o outro sem necessariamente absolvê-lo, e de reconhecer que vínculos podem ser simultaneamente belos e destrutivos.
Por isso, “Alice and Steve” se destaca não apenas como uma comédia eficaz, mas como uma obra surpreendentemente afetuosa sobre falhas humanas. Em tempos marcados por cinismo e polarizações morais rígidas, sua aposta na ambiguidade emocional e na empatia torna-se, em si, um gesto profundamente necessário.