Por Reinaldo Glioche
“Ou você morre como herói ou vive o bastante para se tornar o vilão.” A frase dita por Harvey Dent, personagem de Aaron Eckart em “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, atravessou a cultura pop como uma espécie de síntese moral sobre poder, tempo e corrupção. Curiosamente, ela serve também como chave de leitura para entender o percurso de “The Boys”, produção criada por Eric Kripke a partir dos quadrinhos de Garth Ennis.
Quando estreou, em 2019, a série apresentou uma proposta tão simples quanto subversiva: e se os super-heróis — tratados como celebridades globais — fossem, na prática, figuras moralmente corrompidas? Nesse universo, o grupo conhecido como “Os Sete” funciona como uma espécie de espelho distorcido de ligas clássicas como Vingadores ou Liga da Justiça. Por trás da imagem pública heroica, há arrogância, desprezo pelos humanos e uma obsessão por poder e prestígio.
O grande trunfo das primeiras temporadas foi justamente a forma como a série articulava essa premissa. “The Boys” não era apenas uma sátira do gênero de super-heróis — era também uma crítica afiada à cultura de celebridades e à lógica corporativa que transforma tudo, inclusive pessoas, em ativos de mercado. A corporação Vought operava como metáfora transparente de um capitalismo que absorve e monetiza qualquer narrativa, por mais destrutiva que ela seja.
No centro dessa engrenagem, emergia o conflito entre dois personagens fundamentais: Homelander, interpretado por Antony Starr, e Billy Butcher, vivido por Karl Urban. De um lado, o super-herói mais poderoso do mundo, um híbrido simbólico de Superman e Capitão América, cuja imagem pública contrasta com uma personalidade profundamente instável, marcada por carência e insegurança. De outro, o homem que enxerga nos super-heróis uma ameaça estrutural e dedica sua vida a desmascará-los.
Esse embate funcionava não apenas como motor narrativo, mas como eixo psicológico da série. E grande parte de sua força vinha da ambiguidade de Homelander. Ele era, ao mesmo tempo, monstruoso e estranhamente humano — um vilão capaz de seduzir o público justamente por sua complexidade.
É aí que começa o problema.

À medida que a série avançou, especialmente a partir da terceira temporada, tornou-se evidente um desconforto da própria realização com a recepção do personagem. O fato de Homelander ser abraçado por parte do público — como já ocorreu com figuras como o Coringa — parece ter levado os roteiristas a um movimento de correção: sublinhar, reiteradamente, sua vilania.
O resultado foi uma mudança de tom. O que antes era sátira sofisticada começou a escorregar para a paródia. Homelander deixou de ser um personagem perturbadoramente ambíguo para se tornar, gradualmente, uma caricatura de si mesmo — mais explícito, mais ruidoso, menos interessante. Não se trata apenas de torná-lo menos “sedutor”, o que seria uma escolha legítima, mas de esvaziar as camadas que o tornavam complexo.
Essa “desidratação” do personagem coincide com uma perda de consistência narrativa da série como um todo. Subtramas promissoras — como as desenvolvidas no spin-off “Gen V”, especialmente com a personagem Marie Moreau (Jaz Sinclair) — não encontram desdobramentos satisfatórios na reta final. Ao chegar à quinta e última temporada, “The Boys” opta por soluções que soam apressadas, quase improvisadas, para resolver conflitos que vinham sendo construídos ao longo de anos.
O desfecho do confronto entre Butcher e Homelander até carrega um certo peso emocional, fruto do investimento acumulado ao longo de cinco temporadas. Mas isso não é suficiente para esconder a sensação de que a série perdeu o controle sobre sua própria lógica interna.
Há, portanto, uma ironia inevitável: “The Boys”, que começou como uma crítica mordaz à superficialidade e à repetição da cultura pop, acaba se tornando refém de um processo semelhante. E aí voltamos ao vaticinio de Harvey Dent. Ao se levar a sério demais — e ao tentar controlar excessivamente a leitura do público —, a série abre mão daquilo que a tornava singular.
Ainda assim, há méritos incontornáveis. A atuação de Antony Starr permanece como um dos grandes destaques do gênero nos últimos anos. Seu Homelander, mesmo prejudicado por decisões de roteiro, continua sendo uma figura fascinante: poderosa e frágil, cruel e carente, construída a partir de contradições que raramente aparecem com tanta nitidez em produções desse tipo.
Mas isso também reforça o tamanho da frustração. Porque, no fim, “The Boys” parece cumprir, à sua maneira, a máxima que a abre simbolicamente: viveu o bastante para se tornar uma versão menos potente de si mesma.