Redação Culturize-se
Uma noz tem casca dura por fora e polpa delicada por dentro. MLourdes Rabelo Cruz escolheu essa imagem com cuidado para nomear seu romance de estreia, “Noz Mulheres” (LC Books, 290 páginas, R$ 65,90), e a metáfora não é acidental. O livro percorre as histórias de três mulheres — Maria, Lília e Ayla — separadas pelo tempo, mas unidas por um mesmo gesto: o de romper com o que as aprisiona para encontrar, do outro lado da ruptura, uma forma nova de existir.
Para a autora, a “casca” que as personagens desenvolvem ao longo da narrativa não representa apenas um endurecimento; é uma estratégia de sobrevivência. “A princípio o pensamento foi de proteção, manter o interior íntegro, cuidado”, explica em entrevista ao Culturize-se. “Não vejo esse endurecimento apenas como perda de sensibilidade, mas como uma tentativa de sobrevivência emocional diante das experiências vividas.”
As três protagonistas carregam marcas distintas. Maria descobre, às vésperas de se mudar para o exterior, uma verdade perturbadora sobre seu nascimento. Lília sublima em amor intenso o desprezo que acumulou ao longo da vida, até aprender que romper expectativas é também reinventar o próprio destino. Ayla, envolta em luxo e solidão, compreende que o poder exterior não tem valor sem o amor-próprio. Juntas, elas formam o que MLourdes chama de “mosaico de experiências”. Nada mais do que retratos de mulheres que não pedem licença para existir, mas que pagam um preço alto por isso.
A histérica e o furioso
A invisibilidade feminina é um dos fios condutores do livro. MLourdes, que é psicanalista e atuou por décadas em consultório e sala de aula antes de estrear na ficção, aponta um desequilíbrio que persiste no vocabulário cotidiano: “É muito difícil viver num mundo onde, quando um homem grita ou briga, ele é chamado de ‘furioso’, ‘brigão’, ‘aborrecido’, enquanto a mulher, ao expressar a mesma indignação, é chamada de ‘histérica’.” Para ela, esse julgamento desigual não é apenas linguístico, mas estrutural. Atravessa, ela postula, gerações porque foi normalizado ao longo de séculos.
A formação em psicologia e psicanálise moldou diretamente a construção das personagens e seus conflitos internos. “As reações de cada uma vieram de maneira natural, muito ligadas às emoções e aos conflitos humanos que observo há tantos anos”, conta a autora. “A psicologia e a psicanálise ajudam justamente a compreender aquilo que muitas vezes não é dito: as dores silenciosas, os medos, as pressões sociais e os impactos emocionais que as mulheres carregam ao longo da vida.”

O livro não romantiza a libertação. MLourdes é direta ao reconhecer que romper com ciclos opressores tem consequências reais e dolorosas. “Romper com ciclos, relações ou padrões pode trazer liberdade, mas também carrega dores, inseguranças e consequências emocionais importantes”, afirma. “Toda ruptura exige coragem, porque ela mexe com estruturas internas e externas ao mesmo tempo.” A ressalva importa: “Noz Mulheres” não tem a pretensão de ofertar respostas e, sim, de oferecer companhia para quem está no meio do processo.
A questão de fundo é: quanto da identidade feminina é construção espontânea e quanto é imposição disfarçada de natureza? Para a autora, a resposta inclina-se para o segundo lado. “Muitos desses processos são imposições sociais que acabam direcionando comportamentos, escolhas e até silêncios das mulheres. Desde cedo, elas aprendem a recuar, ceder e recomeçar diante de situações que muitas vezes não foram criadas por elas.”
“Mexeu com uma, mexeu com todas”
Apesar do diagnóstico severo sobre as estruturas sociais, MLourdes termina a conversa com um aceno de esperança. Não ingênuo, mas fundado no que ela observa ao redor. “Está acontecendo uma união significativa entre as mulheres”, diz. “Há alguns anos, uma competição não velada fazia com que muitas se distanciassem umas das outras. Hoje, com a independência financeira e com a grande divulgação das diferentes formas de violência sofridas pelas mulheres, existe uma consciência coletiva maior.”
Essa solidariedade, para ela, é o antídoto mais eficaz contra a necessidade de endurecer apenas para sobreviver. A transformação urgente passa por algo aparentemente simples, mas historicamente negado: “o respeito, a escuta e a igualdade de oportunidades, para que a mulher não precise criar mecanismos de endurecimento apenas para conseguir existir e ser respeitada.” E conclui com uma frase que soa como um diagnóstico e um grito de encorajamento ao mesmo tempo: “‘Mexeu com uma, mexeu com todas’ é real, e tem funcionado.”
A noz, afinal, não endurece por capricho. Endurece porque aprendeu que precisa proteger o que há de mais valioso dentro dela. E é exatamente isso que as mulheres de MLourdes Rabelo Cruz fazem. Página após página.