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Ciência e espiritualidade contam a mesma história, teoriza autor de "O Balbuciar de um Eterno"

Por Reinaldo Glioche

O filósofo e poeta Marcelo Gomes não acredita em respostas definitivas. Em sua obra mais recente, sob o pseudônimo de Dionysius Fredericus, ele propõe que a melhor forma de lidar com a complexidade da existência não é através de sistemas rígidos, mas por meio do aforismo e da poesia filosófica. São ferramentas que, segundo ele, permitem abraçar as tensões sem precisar resolvê-las. “A mente, enquanto sede de desejos e imaginações, redefine constantemente as dimensões possíveis”, afirma o autor, cuja escrita se recusa a oferecer conclusões tranquilizadoras.

Para Gomes, a fragmentação de sua obra é uma escolha deliberada. Ele reconhece que há uma “impossibilidade da totalidade enquanto manifestação da consciência individual assumindo-se Ponto já tornado Todo”. Ao mesmo tempo, essa forma aforística expressa uma recusa consciente aos sistemas filosóficos fechados. “Certa feita, eu afirmei que a beleza está diretamente relacionada à síntese”, lembra, citando Nietzsche como referência — não por vaidade, mas para indicar uma direção: dizer em poucas linhas o que outros demandam volumes inteiros.

O título de sua obra sugere um paradoxo: o balbucio de algo eterno. Seria isso uma limitação da linguagem ou uma condição da própria consciência? Para Gomes, ambas as coisas. “Esse balbucio é sim, também, uma limitação da linguagem enquanto limitação, mesmo, do próprio Ser humano, indivíduo, encarnado em matéria pesada e finito, no tempo e no espaço.” Mas é também “uma condição atual constitutiva da própria consciência”, instalada em molduras de sentires do “inequívoco monismo espiritual”, porém inserida em uma realidade de “infindas dualidades contrastantes”. Dessa tensão nasce o motor evolutivo da existência: uma dialética hegeliana ininterrupta de tese, antítese e síntese.

Leia também: O poema como ruína produtiva

Ecletismo conciliador

A obra dialoga com tradições que vão de Platão a Sartre, mas não para criar uma síntese forçada. O ecletismo de Gomes é “total e profundamente conciliador”. “Todas as visões, perspectivas, teorias, filosofias, especulações e ciências contam apenas a mesma história”, argumenta. Para ele, se o absoluto é o somatório do relativo e “tudo está em tudo e é uno e pleno”, todas as pontas soltas levam ao mesmo novelo. Essa visão pode soar como tautologia, reconhece o autor, mas sua consequência ontológica é prática: o indivíduo atento às próprias ações e pensamentos, com a “certeza da fé que sente”, sabe que “tudo se compensa, se reequilibra, se justifica”.

Essa organização dos conflitos não elimina a angústia. Pelo contrário: a obra de Gomes “encapsula uma angústia existencial quase palpável”. Há uma recusa consciente da conclusão, sim, mas também uma crença de que as respostas definitivas são, por natureza, inacessíveis ao indivíduo em evolução. “Eternidade é meio, jamais fim”, resume. “Deuses habitam o Todo, mas em pedacinhos.” A arte, nesse contexto, é o que permite “conceber, gestar e parir paraísos sonhados e imaginados, sempre sentidos”. O autor convida o leitor a responder “repetida e diferentemente às grandes questões no intuito de melhorarmos os nossos desempenhos”.

Um dos eixos centrais da obra é a aproximação entre ciência e espiritualidade. Para Gomes, elas não buscam uma integração artificial, mas “contam as mesmas histórias sob pontos de vista diferentes”. Há uma realidade comum que permite a convivência de universos diferentes em um mesmo “palco-mundo”, onde todos somos “atores de papéis que se desenvolvem por milênios”. Ele diferencia espiritualidade — “a de cada um” — de religião, o aspecto “formal, exterior e grupal-social”, citando Leonardo Boff.

O autor vai além: “Todas as afirmações milenares das sabedorias e esoterismos serão, cedo ou tarde, confirmadas pela ciência.” Para ele, o Espírito é imortal, reencarna para evoluir indefinidamente, e “somos nós, encarnados, elos de correntes que nos damos as mãos a nós mesmos em indescritível fascínio de destinados a sermos os deuses já preditos”.

A poesia como filosofia operativa

Por que a poesia filosófica seria a melhor expressão da “vertigem que acomete o mundo”? Gomes responde com clareza: “O ensaio e a argumentação lógica pressupõem trabalho hercúleo de conhecimentos técnicos que são postos sob escrutínios severos das academias. Muito suscetíveis e estéreis em belezas poéticas espirituais, severos em demasias.” O poeta, por outro lado, “vaga e discorre com maiores liberdades poéticas, com maiores descompromissos com tecnicidades”. A poesia “toca repentinamente com um todo sentido”, enquanto as “tecnicidades explicativas dão passos de vagares em esse mundo sem tempo”.

A escolha pela linguagem poética não foi apenas uma estratégia para alcançar o indizível, mas uma forma de contornar as limitações da argumentação lógica. Para Gomes, a poesia filosófica une razão e intuição, conquista e perda, dualidades sempre presentes. Foi sua “deixa para retomar antigo ideal de meu Espírito, tão antigo!, de apontar para a inescapável viagem que realizamos em Eterno Presente (Espinosa), em Eterno Retorno (Nietzsche), sempre rumo a destinos inimagináveis de reconquistas paradisíacas”.

Ao final, a proposta de Marcelo Gomes é uma filosofia que não organiza a existência eliminando seus conflitos, mas abraçando-os como parte constitutiva do caminho. “Sempre ali, aqui dentro — imagens em espelhos que se adentram aos avessos, e tudo em tudo que, uno, despertou infindos.”

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