Redação Culturize-se
À medida que os efeitos distorcivos da pandemia de Covid-19 se dissipam, um retrato mais nítido do cenário global de museus começa a emergir; marcado não apenas pela recuperação, mas por um crescimento desigual, mudanças no perfil do público e novos polos geográficos de dinamismo. Dados da pesquisa mais recente do The Art Newspaper indicam que os principais museus do mundo receberam, juntos, mais de 200 milhões de visitas em 2025. Embora ainda abaixo dos 230 milhões registrados em 2019, o número representa uma recuperação expressiva em relação aos 54 milhões de 2020, confirmando que os museus seguem centrais na vida cultural.
Essa recuperação, no entanto, não foi homogênea. Enquanto partes da Europa e dos Estados Unidos mostram sinais de estabilização, o crescimento mais dinâmico ocorre na Ásia e na América Latina — especialmente no Brasil, onde instituições registram um aumento significativo de público.
Nos Estados Unidos, o quadro é de resiliência sob pressão. O Metropolitan Museum of Art manteve-se como o mais visitado do país, com quase seis milhões de visitantes em 2025, uma leve alta em relação ao ano anterior. Da mesma forma, o Museum of Modern Art e o Art Institute of Chicago apresentaram crescimento consistente, refletindo uma gradual normalização do consumo cultural.
Ainda assim, choques externos continuam a influenciar a frequência. Em Washington, D.C., instituições financiadas pelo governo federal, como a National Gallery of Art e o National Museum of African American History and Culture, sofreram quedas expressivas devido a uma paralisação prolongada do governo, evidenciando como a instabilidade política impacta diretamente a infraestrutura cultural. Na Costa Oeste, incêndios florestais forçaram fechamentos temporários, reduzindo drasticamente o público de espaços como a Getty Villa, enquanto o Getty Center conseguiu manter números relativamente estáveis.
Apesar desses desafios, os museus americanos seguem demonstrando força curatorial. Grandes exposições — especialmente aquelas centradas em figuras canônicas como Vincent van Gogh — continuam a atrair público, enquanto retrospectivas e mostras temáticas ajudam a sustentar o engajamento. Notavelmente, instituições menores e regionais registraram alguns dos maiores crescimentos percentuais, sugerindo uma descentralização da atenção cultural para além dos grandes centros urbanos.

Se os Estados Unidos refletem estabilidade sob pressão, o Brasil representa expansão e renovado entusiasmo do público. O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) mais que dobrou seu público, alcançando 1,2 milhão de visitantes, impulsionado por uma aguardada expansão arquitetônica e por uma grande exposição dedicada a Claude Monet. Essa combinação de investimento em infraestrutura e programação estratégica evidencia uma tendência mais ampla: museus brasileiros estão se posicionando como marcos culturais e destinos de experiência.
Outras instituições em São Paulo seguiram o mesmo movimento. O Instituto Tomie Ohtake registrou aumento de 84% no público, enquanto o Instituto Moreira Salles cresceu 36%, reforçando o status da cidade como polo cultural da América Latina. Fora da capital paulista, também houve crescimento em Belo Horizonte, onde a Casa Fiat de Cultura apresentou forte alta de visitantes.
Um caso particularmente relevante é a rede do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), cuja exposição itinerante sobre a arte brasileira dos anos 1980 atraiu grande público em diversas cidades. Embora os números totais ainda estejam abaixo dos níveis pré-pandemia, a consistência da frequência indica um público doméstico resiliente e engajado.

No cenário global, o setor de museus parece entrar em um novo equilíbrio. Instituições europeias como o Musée du Louvre continuam liderando em volume, com mais de nove milhões de visitantes, embora persistam preocupações com superlotação. Ao mesmo tempo, o crescimento acelerado na Ásia — especialmente na China e na Coreia do Sul — aponta para um reequilíbrio geográfico do consumo cultural.
O que define o momento atual não é apenas a recuperação, mas a transformação. A pandemia acelerou mudanças estruturais ainda em curso: diversificação de públicos, ascensão de exposições blockbuster como motores econômicos e crescente importância da capacidade de adaptação institucional diante de incertezas políticas, ambientais e econômicas.
Nesse cenário em evolução, as experiências dos Estados Unidos e do Brasil oferecem perspectivas complementares. Uma evidencia os desafios de manter escala sob pressão externa; a outra ilustra o potencial de crescimento estratégico e investimento cultural. Juntas, indicam que o futuro dos museus será moldado não apenas por tendências globais, mas pela capacidade de cada instituição de navegar essa complexa interação.