Redação Culturize-se
Há algo de paradoxal no brutalismo: um estilo nascido da escassez e da urgência do pós-guerra tornou-se, décadas depois, símbolo de sofisticação e vanguarda. O concreto exposto, as vigas aparentes, os volumes maciços e geometrizados… Tudo aquilo que um dia foi chamado de “feio” ou “agressivo” volta com força total às pranchetas de arquitetos e ao interesse do mercado imobiliário premium. No Brasil, e especialmente em Curitiba, esse retorno é cada vez mais visível.
O brutalismo nasceu na Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial. Com cidades inteiras a reconstruir e orçamentos limitados, arquitetos abraçaram o concreto armado como matéria-prima de um novo urbanismo: funcional, honesto, sem ornamentos. O nome vem do francês béton brut (concreto bruto), expressão consagrada por Le Corbusier. Na Grã-Bretanha, o estilo ganhou força nos anos 1950 com projetos habitacionais de grande escala. Na União Soviética, gerou megaestruturas monolíticas que ainda pontuam paisagens do Leste Europeu.
Nos Estados Unidos, o brutalismo marcou campus universitários e edifícios governamentais. A Biblioteca Beinecke de Yale, o Boston City Hall e o Whitney Museum de Marcel Breuer tornaram-se referências mundiais. Na África e na Ásia, o estilo foi adotado por nações recém-independentes como expressão de modernidade e autonomia; uma arquitetura que não precisava imitar o classicismo europeu para ser monumental.
O Brasil e o concreto como identidade
Nenhum país, porém, abraçou o brutalismo com tanta criatividade quanto o Brasil. A ausência de uma indústria siderúrgica consolidada nas décadas de 1950 e 1960 fez do concreto armado a solução natural e os arquitetos brasileiros transformaram essa limitação em excelência técnica e artística. Oscar Niemeyer, com suas curvas audaciosas em Brasília; Lina Bo Bardi, com o MASP suspenso sobre a Avenida Paulista; e Paulo Mendes da Rocha, cujo Ginásio do Ibirapuera lhe renderia o Pritzker, são marcos incontornáveis dessa tradição.
O brutalismo brasileiro também soube se adaptar ao clima tropical. Varandas generosas, térreos livres, elementos vazados e grandes áreas abertas diferenciaram a produção local do modelo europeu, mais fechado e denso. O resultado foi uma vertente singular, celebrada internacionalmente até hoje.

Em Curitiba, cidade conhecida pelo perfil exigente e conservador de seus moradores, o brutalismo encontrou espaço desde os anos 1970. O icônico conjunto dos Edifícios da Glória, projeto dos arquitetos Luiz Forte Netto, Orlando Busarello e Dilva Busarello, com 30 pavimentos e mais de 20 mil metros quadrados, consolidou-se como referência histórica do estilo no centro da cidade. O Palácio Iguaçu e o prédio do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná completam um repertório brutalista robusto que ainda estrutura a identidade visual da capital paranaense.
Hoje, esse legado inspira novos empreendimentos residenciais de alto padrão. O MOVA.WF, no Batel, e o Edifício Aurea 777, no Bigorrilho — ambos executados pela Thá Engenharia —, apostam no concreto aparente como linguagem contemporânea e premium. A escolha não é apenas estética: engenheiros destacam que o concreto exposto elimina camadas de revestimento, reduz resíduos e aumenta a durabilidade da edificação. É, ao mesmo tempo, uma declaração artística e uma decisão técnica racional.
Por que o brutalismo resiste
A permanência do brutalismo no imaginário arquitetônico não é nostalgia, mas reconhecimento. Em um mercado saturado de fachadas genéricas e acabamentos efêmeros, o concreto bruto oferece algo raro: autenticidade. Cada obra é única, impossível de replicar industrialmente. Cada marca da forma, cada textura da superfície conta a história de uma construção que não tem como mentir sobre o que é.
O brutalismo nunca prometeu ser gentil. Prometeu ser verdadeiro. E talvez seja exatamente isso que o mantém tão vivo.