Redação Culturize-se
Geopolítica afetiva é um conceito que emerge na intersecção entre ciência política, sociologia das emoções e psicologia social para descrever um fenômeno contemporâneo fundamental: a mobilização sistemática de afetos (medo, ressentimento, pertencimento, nostalgia, desejo) como instrumento de ordenação do espaço político, tanto nacional quanto transnacional.
O conceito rompe com a longa tradição realista que concebia o Estado como ator racional, guiado por cálculos de interesse e poder material. Na geopolítica afetiva, o território não é apenas físico; ele é emocional. Fronteiras são vividas antes de serem mapeadas. A ideia de pertencimento a uma nação, a uma causa, a um inimigo comum opera no registro do sentimento antes de qualquer formulação ideológica consciente.
Do ponto de vista sociológico, Pierre Bourdieu já apontava que o campo político nunca é neutro: ele é atravessado por disposições incorporadas, habitus que orientam percepções e afetos. O que a geopolítica afetiva acrescenta é a dimensão estratégica desse processo. Governos, movimentos e atores transnacionais não apenas aproveitam afetos preexistentes — eles os cultivam, os ampliam e os direcionam. A socióloga Arlie Hochschild, em seu estudo sobre a direita populista norte-americana, demonstrou como narrativas de “sequestro do sonho” constroem uma economia emocional coletiva: o ressentimento se torna o elo que une comunidades politicamente mobilizadas. O afeto não é epifenômeno da política; ele é a política.

Essa dimensão é ainda mais evidente nas dinâmicas transnacionais. O medo difuso da imigração, a nostalgia de uma Europa cristã ou de uma América grande, a solidariedade afetiva com palestinos ou ucranianos — todos esses fenômenos cruzam fronteiras como ondas emocionais que reconfiguram alianças e hostilidades geopolíticas sem passar necessariamente por instituições formais.
Na perspectiva comportamental, os estudos de Jonathan Haidt sobre fundamentos morais oferecem substrato relevante. Haidt argumenta que o julgamento moral e, por extensão, o julgamento político, é primariamente intuitivo e emocional, sendo a razão frequentemente uma racionalização post hoc. Isso implica que a geopolítica afetiva não apenas manipula emoções superficiais: ela incide sobre estruturas psicológicas profundas, como o senso de pureza/contaminação, lealdade ao grupo e percepção de autoridade legítima.
O medo, em particular, possui uma geometria geopolítica própria. Neurocientistas como Joseph LeDoux mostram que a amígdala processa ameaças antes que o córtex prefrontal as avalie criticamente. Discursos que ativam o medo do “outro” — o estrangeiro, o terrorista, o cosmopolita — produzem respostas políticas antes de qualquer deliberação racional. Governos autoritários e populistas compreenderam isso intuitivamente; a geopolítica afetiva é o nome acadêmico do que eles praticam sistematicamente.
A dimensão digital radicalizou o fenômeno. As redes sociais operam como amplificadores afetivos: seus algoritmos não maximizam a verdade, mas o engajamento e este é predominantemente emocional. O geógrafo político Klaus Dodds observa que o espaço digital se tornou um campo de batalha afetivo onde identidades nacionais e transnacionais são constantemente performadas, contestadas e reinventadas. A guerra na Ucrânia, o conflito em Gaza, a crise climática — todos foram vividos globalmente como eventos emocionais antes de se tornarem objetos de análise estratégica.
Compreender a geopolítica afetiva exige, portanto, uma epistemologia que não separe razão e sentimento como se fossem domínios estanques. O poder que se faz de medo, de pertencimento e de ressentimento não é menos poder por isso. Talvez seja o mais eficaz de todos, justamente porque habita o lugar onde o sujeito político ainda acredita que está sendo apenas humano.