Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

Oscar revela uma Hollywood em transformação

Reinaldo Glioche

A temporada do Oscar chegou ao fim e, como tem ocorrido nos últimos anos, a corrida foi longa — talvez longa demais. Em 2026, o calendário se estendeu até meados de março, prolongando uma disputa que, para alguns filmes, começou ainda em maio do ano anterior, durante o Festival de Cannes. Foi ali que títulos como “Valor Sentimental” e “O Agente Secreto” começaram a se posicionar na corrida internacional. Ambos chegaram ao prêmio de Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood com força na categoria de filme internacional, vencida pelo longa norueguês, e também marcaram presença na categoria principal de Melhor Filme, ainda que ali como coadjuvantes de uma disputa que rapidamente ganhou um protagonista claro.

A grande notícia da noite foi, sem dúvida, a consagração de Paul Thomas Anderson. Um dos autores mais respeitados do cinema americano contemporâneo, Anderson acumulava uma trajetória impressionante, mas também um histórico de frustrações na premiação. Ao longo de décadas, seus filmes — como “Boogie Nights”, “Magnolia”, “Sangue Negro” e “Trama Fantasma” — renderam indicações, prestígio e culto crítico, mas nunca a estatueta. Até agora.

No domingo (15), Anderson venceu três vezes: melhor roteiro adaptado, melhor direção e melhor filme como produtor de “Uma Batalha Após a Outra”. O longa foi o grande vencedor da noite, com seis prêmios, consolidando uma trajetória que já havia sido amplamente vitoriosa ao longo da temporada. O filme triunfou no BAFTA, no Glodo de Ouro, no Critics’ Choice Awards e também nos prêmios dos sindicatos da indústria, como o Directors Guild of America e o Producers Guild of America. Era, portanto, uma corrida praticamente decidida antes mesmo da abertura do envelope final.

Havia, claro, quem torcesse por “Pecadores”. O filme chegou ao Oscar com impressionantes 16 indicações, estabelecendo um novo recorde histórico, e terminou a noite com quatro estatuetas. Mas, apesar da campanha apaixonada de seus apoiadores, a verdade é que a disputa por melhor filme nunca pareceu realmente aberta. Desde o início do circuito de premiações, “Uma Batalha Após a Outra” se comportou como um favorito inevitável.

Lendo as entrelinhas

A vitória tem um significado que vai além da consagração tardia de Anderson. Em primeiro lugar, trata-se de um filme assumidamente político. Ambientado em um contexto de Estados Unidos opressivo e paranoico, o longa observa um país que vigia e persegue seus próprios cidadãos enquanto celebra o inconformismo e a resistência. Ao mesmo tempo, o filme encontra uma dimensão íntima na relação entre pai e filha que estrutura a narrativa, reforçada por atuações muito elogiadas.

O cineasta Paul Thomas Anderson | Foto: Reprodução/ABC

Entre elas, a de Sean Penn, que confirmou o favoritismo e venceu como ator coadjuvante. Foi o terceiro Oscar do ator, que já havia sido premiado por “Sobre Meninos e Lobos” e “Milk – A Voz da Igualdade”. Com isso, Penn passa a integrar um clube extremamente restrito, ao lado de nomes como Daniel Day-Lewis, Jack Nicholson e Walter Brennan — todos vencedores de três Oscars competitivos de atuação.

Mas o triunfo de “Uma Batalha Após a Outra” também carrega uma dimensão industrial relevante. O filme pertence à Warner Bros., um dos estúdios mais tradicionais de Hollywood, que vive um momento de profunda incerteza diante de negociações que podem levá-lo a uma nova configuração corporativa ao lado da Paramount Skydance.

Nesse contexto, a vitória tem um peso simbólico: trata-se do primeiro longa de um grande estúdio a vencer o Oscar de melhor filme desde “Os Infiltrados”, de Martin Scorsese, em 2007. Um filme que também era da Warner. Desde então, a premiação tem sido dominada por produções de estúdios independentes ou distribuidores especializados, como A24 e Neon.

Ao mesmo tempo, essa vitória carrega um certo gosto agridoce. A história recente de Hollywood mostra que aquisições corporativas podem alterar profundamente a identidade criativa dos estúdios. A antiga 20th Century Fox, por exemplo, tornou-se muito menos presente no Oscar após ser adquirida pela The Walt Disney Company. É inevitável perguntar se algo semelhante poderá acontecer com a Warner.

A cerimônia também refletiu essas transformações mais amplas da indústria. Apresentado por Conan O’Brien, o Oscar demonstrou uma curiosa autoconsciência. A premiação brincou com sua própria relevância em um mundo dominado por novas plataformas e novos hábitos de consumo audiovisual. Houve piadas sobre a transmissão futura da cerimônia no YouTube e sobre a “verticalização” do audiovisual em plataformas como o TikTok.

Outro tema recorrente foi a ascensão da inteligência artificial, que desperta simultaneamente fascínio e temor em Hollywood. Para uma indústria baseada em trabalho criativo — roteiristas, atores, montadores, designers — a tecnologia representa tanto novas possibilidades quanto ameaças reais.

Cena de “Pecadores” | Fotos: Divulgação

Nesse sentido, o Oscar deste ano pareceu menos uma celebração isolada e mais um retrato de um momento de transição. A Academia premiou um grande autor do cinema americano, reafirmou a vitalidade do cinema político e reconheceu a força de obras de gênero como “Pecadores”. Ao mesmo tempo, olhou para si mesma com um certo grau de inquietação.

No balanço final, foi uma edição que conseguiu ser, ao mesmo tempo, reverente e reflexiva. Reverente ao talento de cineastas como Paul Thomas Anderson e reflexiva sobre o futuro de uma indústria em que o cinema continua sendo, inevitavelmente, arte e negócio.

Isso pode te interessar

Arquitetura & Urbanismo

Primeira Bienal brasileira aposta em identidade e contexto para repensar o espaço construído

Reportagens

Comemorações dos 50 anos da Funarte fortalecem a Cultura do Brasil

Cinema

Aos 100 anos, Odeon representa resistência do cinema de rua no Rio

Questões Políticas

Caiado é prenúncio da direita que flerta com o pós-bolsonarismo

Newsletter Gratuita

Tenha o melhor da cultura na palma da sua mão. Assine a newsletter gratuita de Culturize-se. Todos os dias pela manhã na sua caixa de e-mail.