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Vitória de Paul Thomas Anderson e reconhecimento a filmes de gênero marcam a 98ª edição do Oscar

Por Reinaldo Glioche

A 98ª edição do Oscar se desenrolou como uma cerimônia menos marcada por choques do que por consolidação. Foi uma noite em que a indústria pareceu ansiosa para reafirmar sua fé no cinema original, no cinema conduzido por diretores e em performances que expandem os limites tradicionais do que costuma ser premiado. Se o Oscar às vezes é acusado de celebrar escolhas seguras, a cerimônia deste ano pareceu paradoxalmente previsível e, ao mesmo tempo, discretamente significativa: uma noite em que os vencedores eram em grande parte esperados, mas ainda assim carregavam um sentido para o estado atual de Hollywood.

O grande vencedor da noite foi “Uma Batalha Após a Outra”, o mais recente filme do diretor Paul Thomas Anderson. Quando a cerimônia chegou à sua reta final, o domínio do longa já estava claro. Alguns sinais iniciais apontavam nessa direção, incluindo sua vitória na categoria recém-introduzida de elenco, concedida à diretora de casting Cassandra Kulukundis. O prêmio, uma adição há muito aguardada à lista da Academia, serviu como o primeiro indicativo de que o filme de Anderson estava prestes a dominar as principais categorias da noite.

A previsão se confirmou. Anderson acabou levando o Oscar de Melhor Diretor, um momento marcante em uma carreira há muito admirada, mas curiosamente pouco premiada. O cineasta já havia sido indicado pela direção de “Sangue Negro”, “Trama Fantasma” e “Licorice Pizza”, mas a Academia nunca lhe concedera o prêmio. Sua vitória por “Uma Batalha Após a Outra” pareceu, portanto, menos uma surpresa do que uma correção tardia; o reconhecimento de um dos autores mais distintos do cinema americano contemporâneo.

Durante seu discurso de agradecimento, Anderson manteve o mesmo tom que adotou ao longo da temporada de premiações: grato, modesto e reflexivo. Ainda assim, admitiu o quanto a conquista significava para ele, revelando a ambição silenciosa que muitas vezes se esconde por trás de sua persona pública introspectiva. A imagem de Anderson segurando — e quase esfregando nervosamente — sua estatueta simbolizou a sensação surreal de finalmente alcançar um reconhecimento que lhe escapara por décadas.

Se a vitória de Anderson representou a Academia premiando um mestre do cinema, a disputa de Melhor Ator refletiu outra mudança: uma disposição maior para reconhecer narrativas de gênero. Michael B. Jordan venceu o Oscar por seu papel duplo em “Pecadores”, um drama com elementos de terror que mistura componentes sobrenaturais a uma narrativa centrada em personagens. Com isso, Jordan alcançou algo relativamente raro: conquistar um Oscar de atuação por um filme enraizado no cinema de gênero.

Sua performance ganhou força gradualmente ao longo da temporada de prêmios. Sua vitória no Actor Awards, ocorrida no meio do período de votação do Oscar, ajudou a consolidar sua candidatura. O triunfo também prolongou sua parceria criativa com o cineasta Ryan Coogler, colaboração que produziu alguns dos projetos mais bem-sucedidos, comercial e criticamente, da última década.

O discurso de Jordan foi um dos momentos mais emocionantes da noite. Ao refletir sobre sua carreira, o ator falou sobre persistência, comunidade criativa e a importância de acreditar no futuro de um cinema ambicioso. Sua vitória também sinalizou o apreço mais amplo da Academia por “Pecadores”, que acumulou várias indicações e outras conquistas ao longo da cerimônia.

Entre elas esteve o prêmio de Melhor Fotografia, vencido por Autumn Durald Arkapaw por seu trabalho no filme. O reconhecimento teve significado histórico: ela se tornou a primeira mulher a vencer a categoria e apenas a quarta mulher indicada em toda a sua história. Sua fotografia atmosférica — que mistura sombras, texturas e uma tensão visual inquietante — foi central para o tom singular do longa.

A equipe de “Uma Batalha Após a Outra” festeja no palco do Oscar | Foto: Getty

O gênero de terror também marcou presença importante na cerimônia com “A Hora do Mal”, que rendeu a Amy Madigan o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Sua performance como a perturbadora tia Gladys destacou-se como uma das transformações de personagem mais incomuns do ano — uma interpretação ao mesmo tempo grotesca e fascinante que críticos descreveram como inesquecível. O papel foi um marco dramático para a atriz veterana, cuja indicação anterior havia ocorrido quarenta anos antes. Sua vitória, portanto, carregou o peso emocional de um reconhecimento muito tardio.

Considerados em conjunto, os resultados da noite sugeriram uma Academia cada vez mais aberta a filmes que operam fora dos tradicionais padrões de prestígio. Elementos de terror, híbridos de gênero e narrativas pouco convencionais encontraram espaço entre os vencedores — uma mudança notável em relação a épocas anteriores, quando produções desse tipo raramente rompiam a barreira das principais categorias.

Por trás de muitas dessas vitórias esteve a Warner Bros. Discovery, cuja liderança de estúdio apostou fortemente em produções originais. O catálogo da empresa acabou dominando a premiação, acumulando diversas estatuetas ao longo da cerimônia. Executivos do estúdio descreveram a noite como uma confirmação de sua disposição em apoiar diretores ambiciosos e projetos pouco convencionais.

Ainda assim, a cerimônia em si adotou um tom mais de entretenimento cuidadosamente calibrado do que de espetáculo triunfalista. Apresentado por Conan O’Brien, o evento transcorreu com ritmo ágil e evitou muitos dos tropeços que marcaram transmissões anteriores. O apresentador fez um monólogo que equilibrou sátira leve e humor afetuoso sobre a indústria, incluindo piadas sobre cultura de streaming, inteligência artificial e as peculiaridades do prestígio hollywoodiano.

Apesar disso, a noite raramente explodiu em momentos de verdadeira imprevisibilidade. Muitos dos prêmios mais importantes seguiram a trajetória que já vinha se formando ao longo da temporada. Para espectadores que esperavam reviravoltas dramáticas ou surpresas chocantes, a cerimônia pode ter parecido um pouco contida. Ao mesmo tempo, essa previsibilidade reforçou a sensação de que a Academia havia feito escolhas ponderadas e amplamente respeitadas.

O Oscar, em 2026, serviu como um lembrete de que o cinema continua prosperando quando os estúdios investem em vozes autorais e quando o público abraça histórias que desafiam limites convencionais. A noite sugeriu que o futuro de Hollywood ainda pode pertencer a artistas dispostos a correr riscos criativos.

E, se a cerimônia em si pareceu calma em vez de eletrizante, os filmes que ela celebrou contaram uma história mais aventureira — uma em que originalidade, colaboração e persistência artística continuam sendo as forças que movem a magia do cinema.

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