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Mulheres recebem apenas 10% dos direitos autorais no Brasil

Redação Culturize-se

A indústria musical brasileira tem mais mulheres. Mas não as remunera de forma proporcional. É o que revela a edição 2026 do relatório “Por Elas Que Fazem a Música”, lançado pela União Brasileira de Compositores (UBC). O levantamento mostra que, apesar de um crescimento acumulado de 229% no número de mulheres associadas desde a primeira edição do estudo, em 2017, elas ainda recebem apenas 10% do total distribuído em direitos autorais no país. Os números expõem uma desigualdade estrutural que avança pouco e que cobra um preço alto de quem tenta construir carreira no setor.

Entre os 100 maiores arrecadadores da UBC em 2025, somente 11 são mulheres. Em contrapartida, a melhor colocação feminina subiu do 21º para o 16º lugar, sinal de que as que chegam ao topo estão chegando mais longe; ainda que em número pequeno. Na distribuição de renda entre as associadas, as autoras concentram 73% do total recebido pelas mulheres, enquanto versionistas e produtoras fonográficas registram apenas 1% cada. As intérpretes respondem por 23% e as musicistas executantes por 2%.

O crescimento no cadastro de obras e fonogramas é um dado positivo: o número de fonogramas registrados por produtoras fonográficas cresceu 13%, e as obras cadastradas por autoras e versionistas tiveram alta de 12%. Rádio e show lideram as fontes de arrecadação feminina, com 17% cada, seguidos pelo streaming, com 11%. O cinema aparece na última posição, com apenas 0,5%.

A concentração geográfica também chama atenção. Sudeste, Nordeste e Sul somam juntos 88% das associadas. O Sudeste sozinho concentra 60% do total, enquanto o Norte responde por apenas 3% — dado que reforça a necessidade de políticas regionais de incentivo e acesso.

O que os números não capturam sozinhos

Para além das estatísticas financeiras, o relatório realizou um levantamento digital com mais de 280 profissionais do setor sobre assédio, discriminação e violência no ambiente de trabalho. Os resultados são graves. Dos relatos coletados no primeiro trimestre de 2026, 65% das mulheres afirmaram ter vivido assédio no contexto profissional, com destaque para assédio sexual (74%), verbal (63%) e moral (56%). Outros 35% disseram ter enfrentado algum tipo de violência, sobretudo psicológica (72%), toque físico sem consentimento (58%) e violência verbal (38%).

Em 96% dos casos, os autores das situações foram homens. Três em cada quatro mulheres relataram impacto emocional, e metade afirmou ter se afastado de pessoas ou ambientes de trabalho. Quase metade (49%) não buscou apoio nem compartilhou o ocorrido, sinalizando as barreiras que ainda cercam a denúncia.

No campo da discriminação, 63% disseram ter sido ignoradas ou interrompidas em contextos profissionais, 59% receberam comentários que desqualificaram sua competência e 52% tiveram créditos omitidos ou minimizados. Os ambientes mais associados a esse tipo de situação foram reuniões de negócio (45%), bastidores de shows (31%) e passagem de som (27%). Entre as mulheres com filhos, 60% afirmam que a maternidade afetou a carreira, principalmente pela redução de convites, menos turnês e comentários preconceituosos.

Os relatos coletados revelam situações concretas. A letrista Iara Ferreira descreveu ter sido convidada por um músico consagrado para uma composição conjunta, chegando a encontrar uma cena preparada para um encontro amoroso. “Me senti completamente desrespeitada e humilhada como profissional. Passei um bom tempo duvidando de minha capacidade”, contou. Outra profissional, em anonimato, relatou ter sofrido assédio sexual em um festival e silenciado para não perder oportunidades de trabalho.

A UBC como contraponto interno

Pixabay

Em meio ao cenário desafiador, a própria UBC se apresenta como modelo de equidade interna: 59% da equipe é composta por mulheres, que ocupam 57% dos cargos de liderança e gerenciam 100% das filiais da entidade. Em 2023, Paula Lima foi eleita a primeira Diretora-Presidenta da organização.

“O crescimento de 229% traduz histórias, trajetórias e conquistas de mulheres que há anos lutam por espaço, reconhecimento e voz”, afirma Lima. Para a diretora Fernanda Takai, os avanços são reais, mas insuficientes. “Abrimos 2026 mirando um futuro que espelhe nossa cultura interna. A indústria da música precisa ser mais representativa e não vamos perder esse foco”, diz.

O relatório deixa claro que o problema não é falta de talento, nem de interesse. É de estrutura e de vontade coletiva para mudá-la.

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