Redação Culturize-se
Quase uma década após seu último trabalho solo propriamente dito, Bruno Mars retorna com “The Romantic”, uma coleção de nove faixas e 31 minutos que soa menos como uma reinvenção e mais como o aprofundamento de uma estratégia que ele vem refinando desde “24K Magic” e, de forma ainda mais explícita, desde sua colaboração com Anderson .Paak em “An Evening With Silk Sonic”. Se este último foi uma homenagem luxuosa à soul dos anos 1970, o novo álbum redobra a aposta removendo concessões contemporâneas e mergulhando de cabeça em uma paisagem sonora meticulosamente reconstruída de meados da década de 1970.
Em um mercado pop atualmente dominado por superestrelas femininas e por composições hiperconfessionais, o timing de Mars é conspícuo. Com pares como Harry Styles também orbitando o calendário de lançamentos, há um certo ar de disputa performática — uma afirmação de que autores masculinos do pop ainda comandam atenção. Ainda assim, “The Romantic” se destaca não por sua força moderna, mas por sua recusa em dialogar com a modernidade. A disco mal aparece. Texturas contemporâneas de R&B estão ausentes. Não há vestígios sonoros de hi-hats do trap ou do minimalismo típico da era do streaming. Em vez disso, Mars e o coprodutor D’Mile constroem uma cápsula do tempo tão hermeticamente selada que poderia muito bem ostentar o carimbo de 1976.
A arquitetura do álbum reforça essa tese retrô. Ele se abre com “Risk It All”, um apelo de combustão lenta adornado por arabescos de violão acústico e metais em estilo mariachi — um sinal precoce das correntes latinas que surgem intermitentemente ao longo do disco. “Cha Cha Cha” vem em seguida, com congas e arranjos de cordas tensos, flertando com texturas vintage associadas a Santana. Mais adiante, “Something Serious” mergulha tão profundamente nessa linhagem que praticamente convida a comparações com “Oye Como Va”. Esses gestos são executados com carinho, sonicamente imaculados e ocasionalmente tão referenciais que correm o risco de se tornarem peças de museu.
Onde Mars realmente se compromete é nas baladas. Diferentemente de “24K Magic”, que prosperava na energia do funk cinético, “The Romantic” é dominado por danças lentas e andamentos típicos de recepções de casamento. “God Was Showing Off” e “Why You Wanna Fight?” ocupam uma interseção luxuosa entre a doçura da Motown e o melodrama da Philly soul. “Dance With Me”, tão literal quanto o título sugere, é projetada para casais balançando sob luzes suaves. O álbum frequentemente soa menos como um revival da disco e mais como um revival de baile de formatura.

Tecnicamente, é difícil apontar falhas. Os arranjos de metais reluzem; a seção rítmica se encaixa nos grooves com precisão de músicos de estúdio; os backing vocals — aqueles “yeah-yeah-yeahs” à moda Motown — são organizados com exatidão quase clínica. O timbre rouco de Mars continua sendo um instrumento formidável, flexível e controlado. Em “Nothing Left”, uma power ballad expansiva aparentemente projetada para humilhar aspirantes a karaokê mundo afora, ele demonstra mais uma vez por que é um dos técnicos vocais mais confiáveis do pop.
E, no entanto, apesar de todo o polimento, “The Romantic” pode soar curiosamente impessoal. Em uma era definida pela escrita diarística — na qual artistas colocam em primeiro plano trauma, vulnerabilidade e autobiografia — Mars continua a operar com arquétipos. Suas letras recorrem, sem pudor, a tropos clássicos da canção de amor: promessas de cruzar oceanos, escalar montanhas, alcançar a lua. As metáforas são amplas, os sentimentos generalizados. Somos informados sobre devoção, mas raramente testemunhamos experiências vividas.
Essa distância estética não é nova; é, possivelmente, parte de sua marca. Mars sempre privilegiou a estilização em vez da confissão, a persona em vez do memorialismo. Aqui, porém, o efeito é amplificado pela rigidez conceitual do projeto. O compromisso com o pastiche é tão total que a personalidade corre o risco de se dissolver na homenagem. Se “An Evening With Silk Sonic” foi um golpe de brilho exuberante, “The Romantic” soa como sua sequência refinada, talvez mais coesa, mas conceitualmente redundante.
Há também a questão da escala. Mars deliberadamente exclui suas colaborações recentes de alto perfil — o dueto com Lady Gaga, “Die With A Smile”, e a parceria efervescente com Rosé, “Apt.” — optando por uma declaração solo rigidamente controlada. A decisão sublinha sua autoconfiança: nada de participações caça-streaming, nenhum preenchimento algorítmico. Apenas nove músicas, diretas e concisas. Econômico a ponto de beirar a austeridade.
Ainda assim, resta a dúvida sobre a longevidade. “24K Magic” parecia um acontecimento — um rolo compressor de “álbum do ano” cujos refrães se infiltraram na corrente sanguínea cultural. “The Romantic”, por contraste, muitas vezes soa como música de fundo primorosamente produzida. É perfeitamente calibrado para encontros intergeracionais — igualmente palatável para avós e convidados da Geração Z — mas menos propício à escuta profunda. Muitas faixas deslizam agradavelmente sem se afirmar como destaques incontornáveis além de “I Just Might”.
Talvez esse seja o paradoxo no cerne do álbum. A voz de Mars é vívida; a produção é luxuosa; o virtuosismo é irrepreensível. Ainda assim, a temperatura emocional permanece em um fervor contido. O amor é evocado, mas raramente interrogado. A paixão é descrita, mas pouco arriscada. Como um disco de terno de linho — elegante, lisonjeiro, retrô-chique — ele é um sucesso inequívoco. Como declaração artística reveladora, soa cauteloso.