Redação Culturize-se
Após circular por festivais como o Actrum International Film Festival, o OMOVIES – Festival Internacional de Cinema LGBTQIA+ e o Queergestreift Film Festival Konstanz, o longa-metragem “A Miss” chega aos cinemas brasileiros nesta quinta (26), abordando com desenvoltura conflitos familiares, inclusive de gênero, que atravessam gerações.
O longa ostenta um visual marcado por cores vibrantes e uma direção de arte que dialoga com o imaginário melodramático de Pedro Almodóvar, mas sustentado por tensões profundamente humanas. No centro da narrativa está Iêda (Helga Nemetik), ex-miss que projeta na filha Martha (Maitê Padilha) o sonho de uma coroa que não se concretizou como imaginava. A reviravolta surge quando Alan (Pedro David), o filho, demonstra mais aptidão e desejo de ocupar esse lugar.
“’A Miss’ fala de amor, de frustração e de coragem e o riso é uma forma de acessar essas camadas”, afirma Daniel Porto. Para o diretor, o exagero aparente é apenas a superfície de um drama íntimo sobre pertencimento e liberdade.
No coração dos conflitos está a figura de Athena, interpretada por Alexandre Lino, descrito como “tio” dos jovens e mediador entre rigidez e desejo. Para o ator, Athena não é apenas um personagem, mas uma “alma que pede licença para florescer”. Ele rejeita a ideia de fingimento como falsidade: “Vejo menos como mentira e mais como performance de sobrevivência. Quem é singular muitas vezes precisa performar a si mesmo para ser compreendido”.



A fala ecoa a tensão central do filme: o quanto da identidade é expressão genuína e o quanto é resposta às expectativas externas. Ao citar referências como Tabu, de Flávio Bauraqui, em “Madame Satã”, ou Fininha, de Milton Gonçalves, em “A Rainha Diaba”, Lino aponta para uma linhagem de personagens que conjugam delicadeza e resistência. “A delicadeza não anula a força; elas se alimentam”, diz.
Já Maitê Padilha, que vive Martha, observa que o conflito da personagem nasce de uma pressão parental intensificada ao limite. Embora não tenha vivido experiência semelhante, a atriz prefere acessar a personagem pela imaginação: “Quero viver coisas novas, experiências diferentes. Me coloco naquele ambiente e vejo como ele me movimenta internamente”. Para ela, a relação entre Martha e Alan é o contraponto luminoso do filme. “Amo relações de irmãos. É um lugar muito bonito da vida, de parceria e cumplicidade.”
Essa cumplicidade é fundamental para o plano que move a trama: permitir que Alan realize o sonho da mãe sem que ela saiba. O gesto, simultaneamente amoroso e subversivo, expõe as fissuras da família.
Helga Nemetik, intérprete de Iêda, defende a complexidade da personagem contra leituras apressadas. “As críticas que cobram respostas talvez partam da ideia de que a obra precisa oferecer conclusões. Mas arte levanta questionamentos”, afirma. Segundo ela, a trajetória da mãe é atravessada por uma cadeia de frustrações herdadas. O sonho do concurso não era originalmente seu, mas da própria mãe. “Existe uma pressão social sobre o papel da mulher que atravessa gerações.”
Se o concurso de beleza funciona como metáfora de padrões normativos, o filme evita didatismos. Para Nemetik, a cena final marca o início de uma nova relação. “Quando ela diz que Alan não vai deixar de ser seu filho, ela está disponível para aprender, para enxergar esse filho que foi colocado à margem.”
A aceitação não surge como conversão ideológica instantânea, mas como processo. “As relações familiares são constituídas a partir das frustrações, das aceitações e, principalmente, do perdão”, diz a atriz. O amor, insiste, não é anulado pelas falhas; ao contrário, é testado por elas.
O discurso dialoga com a visão de Alexandre Lino sobre autenticidade. Para ele, a provocação do “fingimento” no filme espelha o medo coletivo de sermos inteiros. A dramédia, ao rir das situações, desmonta defesas e abre espaço para a vulnerabilidade.
“A Miss” se insere, assim, em uma tradição de cinema brasileiro que aborda gênero e sexualidade por meio da experiência cotidiana, sem abandonar a leveza. Ao equilibrar cores saturadas, humor ácido e conflitos emocionais densos, Daniel Porto constrói uma narrativa que reconhece a família como território de tensão, mas também de transformação.
Ao final, o que está em jogo não é apenas a faixa e a coroa, mas a possibilidade de cada personagem existir sem fragmentação. Entre risos e confrontos, “A Miss” aposta na coragem de rever expectativas e na potência política do afeto.