Reinaldo Glioche
Premiado como Melhor Diretor no Festival de Cannes por “O Agente Secreto”, o cineasta Kleber Mendonça Filho ganha um retrato aprofundado na segunda temporada da série “Cineastas”. O episódio dedicado ao diretor estreia com exclusividade no CurtaOn – Clube de Documentários – em 1º de março, duas semanas antes da cerimônia do Oscar, marcada para o domingo (15) quando seu longa concorre em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator, para Wagner Moura, e Melhor Direção de Elenco.
Com dez episódios, a série se dedica a revelar o processo criativo de realizadores brasileiros, explorando ideias, influências, métodos de produção e bastidores de filmagem.
Dirigido por Hermes Leal, o episódio inaugural percorre a trajetória de Mendonça Filho desde os tempos de crítico de cinema até sua consolidação como um dos nomes mais reconhecidos internacionalmente do audiovisual brasileiro. Em conversa franca, o diretor comenta obras que marcaram sua filmografia, como “O Som ao Redor”, “Aquarius” e “Bacurau”, além do recente “O Agente Secreto”.
Sobre “Bacurau”, codirigido com Juliano Dornelles, ele relembra a intenção de investir no cinema de gênero como força narrativa e política. “A gente precisa se juntar e fazer um filme completamente louco e sem noção”, conta, ao destacar que o contexto político brasileiro foi determinante para que o projeto ganhasse forma e urgência. A produtora Emilie Lesclaux, sua parceira profissional e pessoal, também participa do episódio.
Ao abordar “Aquarius”, protagonizado por Sônia Braga, Mendonça enfatiza a construção de uma personagem que foge ao arquétipo da vítima. “Ela é uma burguesa, inclusive arrogante, e pode dizer não”, afirma, explicando que a tensão dramática do filme nasce de uma “guerra surda” travada no campo simbólico e imobiliário.
Produzida pela HL Filmes, “Cineastas” reúne mais de 70 entrevistados, entre diretores, atores e críticos. Além de Kleber Mendonça Filho, a nova temporada contempla nomes centrais do audiovisual brasileiro, como Walter Salles, Laís Bodanzky, Karim Aïnouz, Jeferson De, José Padilha, Sandra Kogut, Anna Muylaert, João Batista de Andrade e Júlio Bressane.
O painel traçado pela série evidencia a pluralidade estética e temática do cinema nacional. De um lado, expoentes do Cinema Marginal, como Bressane, que defende um cinema transgressor e de baixo orçamento; de outro, realizadores que dialogam com grandes festivais internacionais e tensionam questões sociais contemporâneas.

No CurtaOn, também ficam disponíveis, a partir de 1º de março, episódios dedicados a Anna Muylaert — diretora de “Que Horas Ela Volta?” — e a Gabriel Mascaro, reconhecido por obras como “Boi Neon” e “O Último Azul”, premiado em Berlim em 2025. Os demais episódios chegam ao streaming em abril, em datas escalonadas.
A proposta central da série é investigar o “como fazer” de cada realizador. No caso de Kleber Mendonça Filho, o episódio destaca a transição da crítica para a direção e a construção rigorosa de roteiros que articulam comentário social e tensão de gênero.
Atrizes como Maeve Jinkings e Karine Teles contribuem com depoimentos sobre o método do diretor, marcado por precisão de mise-en-scène e atenção ao trabalho de elenco — aspecto que ganha relevância diante da indicação ao Oscar na categoria de Direção de Elenco.
Ao reunir trajetórias que atravessam décadas — da resistência à ditadura ao cinema político contemporâneo — “Cineastas” funciona como um mosaico da produção audiovisual brasileira. No momento em que “O Agente Secreto” projeta o país novamente no centro da temporada internacional de prêmios, a série oferece uma oportunidade de compreender, em profundidade, os processos criativos por trás de filmes que transformaram o cinema brasileiro em referência global.