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A batalha ideológica que atravessa a Berlinale 2026

Redação Culturize-se

Quando o Festival Internacional de Cinema de Berlim abriu sua edição de 2026 com “No Good Men”, da diretora afegã Shahrbanoo Sadat, o que se esperava era mais uma temporada de cinema politicamente engajado — tradição que remonta à fundação do evento, em 1950, como vitrine do “mundo livre” em plena Guerra Fria. O que não se previa era que o debate central extrapolaria as telas para se concentrar, quase obsessivamente, nas entrevistas coletivas.

A pergunta que paira sobre Berlim hoje não é apenas sobre Gaza, Irã ou Ucrânia. É outra, mais estrutural: celebridades devem usar seus palcos para falar de política? Ou o espaço artístico deve permanecer, como defendem alguns, um “contrapeso” à arena ideológica?

O ponto de ebulição ocorreu ainda na manhã de abertura, durante a coletiva do júri internacional presidido por Wim Wenders. Questionado pelo jornalista Tilo Jung sobre o financiamento estatal alemão ao festival e a posição do governo em relação a Gaza, Wenders respondeu: “Temos de ficar fora da política. Se fazemos filmes dedicadamente políticos, entramos no campo da política. Mas somos o contrapeso da política.”

O trecho viralizou. O livestream foi interrompido por problemas técnicos, segundo a organização, mas o corte alimentou suspeitas de censura. A escritora indiana Arundhati Roy cancelou sua participação, classificando como “inconcebível” a ideia de que arte não deva ser política.

A direção do festival reagiu. Em nota, afirmou “respeitar a decisão” de Roy e lamentar sua ausência. Pouco depois, a diretora do evento, Tricia Tuttle, publicou um comunicado mais amplo: “As pessoas pedem liberdade de expressão na Berlinale. A liberdade de expressão está acontecendo na Berlinale. Mas cada vez mais cineastas são criticados se não respondem, criticados se respondem e criticados se não conseguem comprimir pensamentos complexos em um soundbite.”

O diagnóstico de Tuttle toca num nervo contemporâneo: o ambiente digital favorece o “recorte viral”, muitas vezes deslocado do contexto.

Falar ou não falar?

Se Wenders representa a tradição europeia que separa cinema e política institucional, outras vozes no festival adotaram posição oposta. A diretora finlandesa Hanna Bergholm declarou: “Como adultos, temos a responsabilidade de nos manifestar contra a violência e a injustiça, porque não se manifestar também é uma escolha.”

O contraste não é novo — mas ganhou nova intensidade na era das redes sociais.

Fora de Berlim, o debate ecoa em Hollywood. George Clooney, por exemplo, transformou o engajamento político em parte estruturante de sua imagem pública. Apoiado em décadas de ativismo — do Sudão à política partidária americana — Clooney defende que falar é um “dever cívico”, mesmo quando gera desgaste. Em 2024, publicou um artigo pedindo que Joe Biden desistisse da reeleição; sustentou depois que sua obrigação era “dizer a verdade”.

Na outra ponta está Daniel Day-Lewis. Avesso a entrevistas e raramente disposto a comentar temas públicos, o ator sempre sustentou que o trabalho deve falar por si. Em reflexão recente sobre sua aposentadoria, afirmou que teria feito melhor se tivesse “mantido a boca fechada”. Para ele, a exposição de opiniões pessoais pouco acrescenta à experiência estética.

Entre esses dois polos, o terreno é movediço.

Wim Wenders em Berlim | Foto: AFP

O púlpito das premiações

A crítica ao ativismo de celebridades ganhou força com discursos em premiações. Billy Bob Thornton declarou no podcast de Joe Rogan que atores deveriam “calar a boca” ao subir ao palco: agradecer, celebrar colegas e sair. Se querem ajudar causas, argumenta, que usem seu dinheiro de forma privada, em vez de transformar cerimônias em palanques.

O comediante Ricky Gervais tornou-se o rosto mais estridente dessa posição. Ao comentar discursos politizados no Grammy de 2026, republicou seu monólogo do Globo de Ouro de 2020 com a legenda: “Eles ainda não estão ouvindo”. Naquele discurso, ironizou atores que, segundo ele, vivem em bolhas corporativas e não deveriam “dar lições” ao público.

A acusação central é de hipocrisia: estrelas que criticam estruturas enquanto trabalham para conglomerados que lucram com elas.

Se Gervais ironiza, Mark Ruffalo encarna o oposto. Ativista ambiental, crítico ferrenho de Donald Trump e presença constante em manifestações progressistas, Ruffalo declarou no Globo de Ouro de 2026 que não pode permanecer em silêncio porque o momento político “não é normal”. Para ele, o silêncio equivaleria à conivência.

Ruffalo já rebateu publicamente empresários e comentaristas que criticaram artistas engajados, defendendo que democracia exige participação — inclusive de quem tem microfone.

Sua postura ilustra uma transformação cultural: a expectativa de que figuras públicas assumam posições claras. Para parte do público, neutralidade é cumplicidade.

Berlim como síntese

O que diferencia a Berlinale de outras arenas é sua própria história. O festival apoiou cineastas iranianos perseguidos, exibiu documentários críticos a Israel, condenou a invasão russa da Ucrânia. Ao mesmo tempo, foi acusado tanto de evitar solidariedade explícita aos palestinos quanto de permitir discursos antissemitas.

A organização reiterou antes da edição de 2026 que “todos os convidados têm direito à liberdade de expressão dentro dos limites da lei” e que o evento acolhe “diferentes pontos de vista, mesmo que isso crie tensão”.

O impasse atual, portanto, não é sobre permitir fala, mas sobre expectativa de fala.

Observadores veteranos apontam que o problema talvez não seja a politização em si, mas o enquadramento. Perguntas desconectadas do filme apresentado, formuladas para gerar clipes virais, transformam coletivas em emboscadas performáticas.

Se artistas passam a enxergar festivais como armadilhas de reputação, podem optar pelo silêncio — ou pela ausência. O risco, paradoxalmente, é restringir o próprio espaço de expressão que se pretende ampliar.

Arte como campo inevitavelmente político?

Historicamente, cinema e política sempre se entrelaçaram. Filmes selecionados em Berlim este ano abordam prisão de dissidentes no Irã, repressão a protestos estudantis e violência institucional. Diante disso, sustentar que arte deva permanecer “fora” da política soa, para críticos, como uma abstração insustentável.

Por outro lado, exigir que todo artista se torne comentarista geopolítico pode empobrecer o debate, reduzindo complexidades a slogans.

A controvérsia da Berlinale expõe uma tensão estrutural do século XXI: celebridades não são mais apenas intérpretes, mas nós de uma rede de influência global. O microfone não termina quando o filme acaba.

Se devem ou não falar talvez seja a pergunta errada. A questão real é: em que condições? Com que profundidade? E com que responsabilidade — tanto de quem fala quanto de quem edita, recorta e viraliza?

Em Berlim, a discussão está longe de se encerrar. E talvez seja esse o ponto: num festival concebido como trincheira cultural, o silêncio absoluto sempre foi uma ilusão.

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