Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

Inteligência artificial pode estar remodelando a forma como pensamos

Por Reinaldo Glioche

Algo sutil, mas profundo, está mudando na forma como pensamos. A inteligência artificial reduziu a fricção da cognição a quase zero. Perguntas que antes exigiam tempo, incerteza e elaboração mental agora retornam totalmente estruturadas, muitas vezes antes mesmo de termos esclarecido o que estamos perguntando. A conveniência parece natural e quase inevitável. É justamente por isso que merece escrutínio.

Durante a maior parte da história humana, pensar foi inseparável do esforço. Immanuel Kant descreveu a mente não como um receptor passivo de impressões, mas como um organizador ativo da experiência. Não apenas absorvemos a realidade; nós a moldamos. O espaço entre a pergunta e a resposta não era vazio — era formativo. Confusão, demora e dificuldade não eram ineficiências a serem eliminadas, mas condições sob as quais o julgamento amadurecia.

A inteligência artificial comprime esse espaço. Quando um modelo de linguagem entrega coerência instantaneamente, o papel do usuário muda de forma sutil. Em vez de construir o pensamento, passamos a avaliá-lo. Avaliar parece uma atividade ativa — crítica, até sofisticada —, mas é estruturalmente diferente de originar. A arquitetura do pensamento se altera quando a estrutura precede o esforço.

A cognição é metabolicamente custosa. O cérebro evoluiu em condições nas quais a clareza exigia empenho. Quando a coerência se torna barata, o incentivo para gerá-la internamente enfraquece. A passividade não se apresenta como desengajamento. Ela parece alívio. A mente ainda se movimenta, mas dentro de limites já traçados em outro lugar.

Pesquisas recentes do Media Lab do MIT sugerem que essa mudança pode ter consequências mensuráveis. Em um estudo com 54 participantes entre 18 e 39 anos, os pesquisadores dividiram os voluntários em três grupos e pediram que escrevessem redações no estilo do SAT usando ChatGPT, Google Search ou nenhum recurso digital. A atividade cerebral foi registrada por EEG em 32 regiões. Os resultados chamaram atenção: o grupo que utilizou ChatGPT apresentou os níveis mais baixos de engajamento neural e desempenho inferior em medidas cognitivas, linguísticas e comportamentais.

Ao longo de vários meses, o padrão se intensificou. Participantes que utilizaram ChatGPT tornaram-se cada vez mais dependentes da ferramenta, frequentemente recorrendo a copiar e colar nas redações finais. Dois professores de inglês que avaliaram os textos os descreveram como amplamente “sem alma”, destacando similaridades na estrutura e na formulação. As leituras de EEG mostraram redução no controle executivo e no engajamento atencional. Talvez mais preocupante: quando convidados posteriormente a reescrever uma redação anterior sem assistência, esses participantes lembravam pouco do que haviam escrito. O trabalho cognitivo fora realizado, mas não integrado.

Em contraste, o grupo “apenas cérebro”, aqueles que escreveram sem auxílio digital, apresentou os níveis mais altos de conectividade neural, especialmente nas faixas de frequência alfa, teta e delta, associadas à ideação criativa, ao processamento semântico e à carga de memória. Esses participantes relataram maior senso de autoria e satisfação. O grupo que utilizou o Google também demonstrou forte engajamento, sugerindo que buscar e sintetizar informações manualmente ainda preserva o processamento cognitivo ativo.

Foto: Reprodução/Internet

O estudo tem limitações. A amostra é pequena e ainda não passou por revisão por pares. Mas a pesquisadora responsável, Nataliya Kosmyna, optou por divulgar os achados antecipadamente por preocupação com usuários mais jovens, cujos cérebros em desenvolvimento podem ser particularmente vulneráveis. Seu alerta não é sobre incompetência imediata. É sobre adaptação a longo prazo. Se o esforço deixa de ser necessário, o que acontece com os sistemas formados por meio dele?

Modelos de linguagem de grande porte não são apenas ferramentas no sentido convencional. Ferramentas ampliam capacidades sem remodelar a estrutura da intenção. Sistemas de IA, porém, operam mais próximos da própria formação do pensamento. Eles influenciam o enquadramento antes que a reflexão esteja plenamente formada. Tornam-se parte do ambiente cognitivo e uma presença constante que molda como e quando exercemos esforço.

As implicações não são necessariamente distópicas. O estudo do MIT também oferece um contraponto promissor. Quando participantes que inicialmente escreveram redações sem auxílio passaram posteriormente a usar o ChatGPT, sua conectividade cerebral aumentou em diferentes faixas de frequência. Isso sugere que a IA pode potencializar o aprendizado quando adicionada a um processo cognitivo já ativo. A diferença está na sequência: construção primeiro, ampliação depois.

A questão mais profunda, portanto, não é se a IA prejudica a inteligência de forma direta. É se continuaremos a construir mapas cognitivos internos quando sistemas externos podem fornecê-los prontos. A intuição de Kant permanece atual: pensar é algo que fazemos. A IA reduz as ocasiões que exigem que o façamos por conta própria.

Se a clareza se tornar sem esforço, ainda praticaremos os hábitos que tornam o julgamento resiliente? O risco não é um colapso intelectual dramático. É uma recalibração gradual — da geração para a gestão, da construção para a conclusão. E essa mudança, por mais silenciosa que seja, pode moldar o futuro do pensamento de forma mais profunda do que qualquer algoritmo isolado.

Isso pode te interessar

Arquitetura & Urbanismo

Primeira Bienal brasileira aposta em identidade e contexto para repensar o espaço construído

Reportagens

Comemorações dos 50 anos da Funarte fortalecem a Cultura do Brasil

Cinema

Aos 100 anos, Odeon representa resistência do cinema de rua no Rio

Questões Políticas

Caiado é prenúncio da direita que flerta com o pós-bolsonarismo

Newsletter Gratuita

Tenha o melhor da cultura na palma da sua mão. Assine a newsletter gratuita de Culturize-se. Todos os dias pela manhã na sua caixa de e-mail.