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Como o maximalismo sofisticado redefine luxo e pertencimento

Redação Culturize-se

Durante anos, o minimalismo dominou o imaginário do morar contemporâneo. Tons neutros, linhas limpas, poucos objetos e uma estética quase silenciosa passaram a ser sinônimo de sofisticação. No entanto, há uma inflexão em curso. Cada vez mais pessoas rejeitam essa estética e buscam se reconhecer nos espaços. Nesse contexto, o maximalismo deixa de ser apenas uma estética e se consolida como estratégia de design e afirmação de identidade.

Esse movimento foi evidenciado na palestra “Maximalismo como linguagem e emoção”, apresentada pela arquiteta Carol Dal Molin na 16ª edição da ABCasa Fair, em São Paulo. O ponto central de sua falar remete ao maximalismo não como excesso desordenado, mas como curadoria. É composição. É narrativa visual. Como ela afirmou, “maximalismo não é bagunça nem excesso aleatório. É informação organizada”.

O que diferencia um ambiente maximalista sofisticado de um espaço visualmente caótico é método. O projeto precisa partir de uma escuta atenta do cliente. Não se trata de impor estampas, cores vibrantes ou peças de grande escala, mas de compreender repertórios afetivos, memórias de viagem, referências culturais e desejos simbólicos. O maximalismo bem executado é autobiográfico.

A própria curadoria apresentada por marcas como a Dani Enne, também presente na feira, ilustra esse ponto. Suas peças em cerâmica artesanal, com formas inspiradas em besouros, joias reinterpretadas e canecas com anéis esculpidos, mostram como o objeto decorativo pode ultrapassar a função utilitária e se tornar ponto focal. Mesmo em ambientes neutros, uma peça autoral cria tensão estética e conexão emocional. O detalhe, quando intencional, transforma o espaço.

Foto: Divulgação

Como estratégia de projeto, o maximalismo parte de três pilares: base estruturante, ponto focal e ritmo visual. A base pode ser um mármore marcante, uma parede com boiserie ou um lambril clássico — referências arquitetônicas que criam continuidade e sustentação visual. A partir daí, entram camadas: arte, texturas, estampas, iluminação dramática. O segredo está na repetição consciente de elementos para gerar unidade. Um tom que se repete, um material que percorre ambientes distintos, uma escala que dialoga entre peças.

Carol Dal Molin reforça essa ideia ao defender equilíbrio. Não se trata de “virar um carnaval”, mas de estabelecer conexões entre espaços. O maximalismo atemporal nasce quando o clássico encontra o contemporâneo. Uma moldura tradicional pode conviver com uma obra de arte vibrante; um sofá de linhas elegantes pode dialogar com almofadas de estampa ousada. A sofisticação está na tensão controlada.

A Lucatti Artes e Decorações também sinaliza uma mudança de mercado ao apostar em peças de maior escala e impacto visual. Isso revela algo importante: o maximalismo não é apenas uma tendência estética, mas uma resposta cultural a um mundo visualmente pasteurizado. Casas que parecem catálogos padronizados já não satisfazem quem busca pertencimento.

O maximalismo contemporâneo é também uma afirmação política do gosto. Ele rompe com a ideia de que sofisticação é sinônimo de neutralidade. Luxo, hoje, é coerência com a própria identidade. É criar uma cena marcante e singular em cada ambiente. É assumir que objetos carregam histórias e que o espaço deve refletir quem o habita.

Em um mercado saturado por soluções previsíveis, o maximalismo devolve emoção ao projeto. Ele exige repertório, sensibilidade e domínio técnico — mas, acima de tudo, exige coragem. Coragem para misturar, para contrastar, para assumir referências. Porque, no fim, design não é sobre seguir tendências. É sobre criar lugares onde as pessoas se reconhecem e desejam permanecer.

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