Por Reinaldo Glioche
A lista de indicados ao Oscar 2026 não apenas confirmou tendências que já vinham se desenhando na temporada, como também consolidou um novo patamar de disputa entre estúdios, distribuidoras e cinematografias internacionais. Em uma manhã marcada por recordes, surpresas e sinais claros de transformação dentro da própria Academia, três movimentos se destacaram: a consagração de “Pecadores” como fenômeno absoluto de premiações, o avanço definitivo do cinema internacional para além da “cota” de prestígio e a forma como diversidade — em raça, nacionalidade, gênero e idade — deixou de ser nota de rodapé para se tornar eixo central da narrativa do ano.
O maior fato do anúncio foi a performance histórica de “Pecadores”. O filme de Ryan Coogler atingiu 16 indicações, quebrando o recorde anterior de 14, compartilhado por clássicos e fenômenos como “A Malvada” (1950), “Titanic” (1997) e “La La Land” (2016). Mais do que um número impressionante, o feito posiciona o longa como a obra mais “abrangente” da temporada: um título que atravessa categorias artísticas e técnicas com força equivalente, sugerindo um consenso raro entre diferentes ramos da Academia. Entre as indicações estão Melhor Filme, Melhor Direção e Roteiro Original para Coogler, além de Melhor Ator para Michael B. Jordan, Melhor Atriz Coadjuvante para Wunmi Mosaku e Melhor Ator Coadjuvante para Delroy Lindo. O pacote se completa com fotografia, design de produção, figurino, montagem, som, maquiagem e cabelo, seleção de elenco, efeitos visuais, trilha e canção (“I Lied To You.”). É, na prática, um mapa de como a indústria enxerga o filme como “evento”: uma produção que não depende apenas de um desempenho ou de uma ideia central, mas de um ecossistema criativo inteiro.
Essa força ganha ainda mais peso quando se observa o impacto de “Pecadores” na dimensão simbólica da diversidade. Das 16 indicações, dez foram para artistas negros — um número que empata o recorde histórico de um único filme com o maior total de indicados negros. A lista inclui, além de Coogler, nomes como a produtora Zinzi Coogler, Jordan, Lindo, Mosaku, a designer de produção Hannah Beachler, a diretora de fotografia Autumn Durald Arkapaw, a figurinista Ruth E. Carter, a chefe de maquiagem e cabelo Shunika Terry e o músico Raphael Saadiq. Em termos de legado, é o tipo de marca que transforma o Oscar em arena de validação cultural. Não é apenas “representatividade”, mas reconhecimento em múltiplos níveis da cadeia criativa — da concepção ao acabamento.

Coogler, aliás, entra num clube ainda mais seleto. Ele se torna apenas o terceiro artista negro a ser indicado no mesmo ano por produzir, dirigir e escrever, seguindo os passos de Jordan Peele e Spike Lee. Isso reforça uma mudança importante na forma como a indústria enxerga autoria: Coogler não aparece como “diretor de prestígio”, mas como força total de projeto, um arquiteto que assina o filme em camadas. Ao lado dele, Zinzi Coogler também alcança um marco duplo: torna-se a primeira produtora filipina indicada a Melhor Filme e a terceira mulher negra indicada na categoria. Juntos, formam o primeiro casal negro a conquistar uma indicação em qualquer categoria — um dado que evidencia como, mesmo em 2026, certas portas ainda estão sendo abertas pela primeira vez.
Se “Pecadores” dominou o topo, o segundo grande destaque foi “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson, com 13 indicações — um resultado que consolida a força do diretor dentro da lógica do Oscar e, ao mesmo tempo, dá à Warner Bros. uma dobradinha rara no placar. Somando os dois filmes, o estúdio chegou a 30 indicações no total, empatando seu recorde histórico (alcançado em 2005). Trata-se de uma performance que reafirma o papel da Warner como um dos poucos players ainda capazes de equilibrar “cinema de autor” e ambição de campanha, sobretudo num cenário em que o streaming e as distribuidoras independentes avançam agressivamente na corrida.
O tabuleiro de estúdios e distribuidores, aliás, foi um dos mais interessantes dos últimos anos. Neon e Netflix fecharam com 18 indicações cada, Focus Features apareceu com 13 e a A24 com 11. Em termos de Oscar, isso diz muito sobre o momento atual: a disputa não é mais exclusivamente sobre “quem tem mais dinheiro para campanha”, mas sobre quem sabe construir narrativa, lastro crítico e presença internacional. A Netflix, por exemplo, emplacou “Frankenstein” com nove indicações, além de ter “Sonhos de Trem” entre os candidatos a Melhor Filme. A Neon, por sua vez, mostrou musculatura em dois eixos ao mesmo tempo: a capacidade de empurrar filmes internacionais para o centro do Oscar e de sustentar campanhas longas com fôlego.
O resultado mais eloquente desse novo Oscar globalizado veio justamente na categoria de Melhor Filme Internacional. A Neon dominou a lista final com quatro dos cinco títulos: “Foi Apenas um Acidente” (França), “Valor Sentimental” (Noruega), “O Agente Secreto” (Brasil) e “Sirāt” (Espanha). O quinto indicado, “The Voice of “A Voz de Hind Rajab” (Tunísia), é distribuído nos EUA pela Willa — e entra como um contraponto potente, inclusive pelo peso político do tema. O recado é direto: o cinema internacional deixou de ser uma “faixa lateral” e se tornou parte estratégica do circuito de premiações, inclusive para empresas americanas que hoje operam como pontes culturais e comerciais.
O caso de “Valor Sentimental” é exemplar. O filme de Joachim Trier não apenas garantiu a sétima indicação da Noruega na categoria, como também surfou uma trajetória de prestígio iniciada em Cannes, onde recebeu uma ovação de 19 minutos e venceu o Grande Prêmio do Júri. Desde então, acumulou campanha consistente e chegou ao Oscar com mais seis indicações, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção. É um tipo de desempenho que reposiciona a obra: ela não é “um filme internacional indicado”, mas um concorrente pleno, capaz de disputar as categorias centrais.

Já “Foi Apenas um Acidente”, do iraniano Jafar Panahi, vem com o selo máximo de Cannes — a Palma de Ouro — e se insere numa tradição recente de filmes “de autor” que atravessam fronteiras de idioma sem perder a força popular dentro da temporada. Panahi ainda estabelece um marco importante: é o primeiro diretor não francês de um filme não falado em francês a ser indicado por um título representando a França na categoria internacional. A movimentação mostra como as identidades nacionais no Oscar também estão se tornando mais complexas, com coproduções, diásporas e trajetórias de exílio redesenhando o mapa do cinema contemporâneo.
O Brasil, por sua vez, vive um momento de rara continuidade. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, chega “no embalo” da vitória de “Ainda Estou Aqui” no Oscar anterior e reforça uma impressão que há anos se insinuava: o cinema brasileiro pode ser competitivo não apenas em prestígio, mas em regularidade. O filme também carrega uma das narrativas mais fortes do ano em termos de atuação: Wagner Moura tornou-se o primeiro brasileiro indicado a Melhor Ator, um marco histórico que o coloca como apenas o terceiro brasileiro indicado em categorias de atuação, depois de Fernanda Montenegro e Fernanda Torres. Além disso, a presença do filme em múltiplas categorias contribui para um recorde maior: o aumento do número de brasileiros reconhecidos pela Academia em um mesmo ano.
A Espanha aparece com “Sirāt”, de Oliver Laxe, que também estreou em Cannes e venceu o Prêmio do Júri. Descrito como um relato idiossincrático sobre ravers em busca de conexão no cenário de festas no deserto do Marrocos, o filme ganhou tração nas últimas semanas, impulsionado por prêmios técnicos no European Film Awards. É um caso típico de “crescimento tardio” na temporada: um título que começa como curiosidade de festival e, aos poucos, se transforma em ameaça real na reta final.
Entre as surpresas do anúncio, a mais barulhenta foi o apagão completo de “Wicked: For Good”, que ficou sem indicações um ano depois de o primeiro filme ter conquistado 10 nomeações e vencido em duas categorias. Em termos de Oscar, esse tipo de virada costuma revelar duas coisas: ou o filme perdeu força na percepção crítica, ou a Academia decidiu que já “cumpriu” sua obrigação de reconhecimento na primeira parte. Seja qual for a explicação, o resultado é um choque, especialmente em uma temporada em que franquias e propriedades intelectuais seguem disputando espaço com cinema autoral.
Também chamaram atenção algumas ausências específicas, como Guillermo del Toro fora de Melhor Direção, apesar de seu “Frankenstein” ser um dos projetos mais comentados do ano. Houve ainda a exclusão de Paul Mescal (por “Hamnet”) em Ator Coadjuvante e de Chase Infiniti (por “Uma Batalha Após a Outra”) em Atriz — dois nomes considerados apostas fortes durante a corrida. O Oscar, como sempre, mantém sua capacidade de contrariar previsões e lembrar que “buzz” não é sinônimo de voto.
Recordes e mais recordes
No campo dos recordes individuais, Timothée Chalamet aparece como símbolo da geração que amadureceu dentro do próprio sistema de prestígio. Aos 30, ele se tornou o ator mais jovem a receber três indicações de atuação e, de quebra, entra como produtor indicado por “Marty Supreme”. Mais do que um dado curioso, isso aponta para um padrão contemporâneo: atores que não querem apenas protagonizar filmes, mas participar da engenharia de projetos — assumindo crédito, risco e influência criativa.
Outros nomes também ampliaram marcas históricas. Steven Spielberg recebeu sua 14ª indicação a Melhor Filme como produtor, estendendo o recorde desde que produtores passaram a ser nomeados em 1951. Dede Gardner, indicada por “F1″, superou Kathleen Kennedy e se tornou a mulher mais indicada em Melhor Filme. Emma Stone, com duas indicações por “Bugonia” (atriz e produtora), tornou-se a segunda pessoa mais jovem a atingir sete nomeações na carreira e a mulher mais jovem a chegar a esse número, ultrapassando Meryl Streep nesse recorte etário.
Mas talvez o dado mais revelador da noite seja o conjunto: pela oitava vez consecutiva, ao menos um filme em língua não inglesa foi indicado a Melhor Filme. E, em 2026, o Oscar bateu o recorde de performances não faladas em inglês indicadas em um mesmo ano: quatro — incluindo Wagner Moura, Inga Ibsdotter Lilleaas, Renate Reinsve e Stellan Skarsgård. Este último, aliás, faz história ao se tornar o primeiro ator indicado em Ator Coadjuvante por uma performance em um longa internacional não falado em inglês, preenchendo a última categoria de atuação que ainda resistia a esse tipo de reconhecimento.
Somado a isso, “O Agente Secreto” e “Valor Sentimental” se tornam o 12º e o 13º filmes não falados em inglês a serem indicados simultaneamente a Melhor Filme e Melhor Filme Internacional — uma lista que, até hoje, só teve um vencedor duplo: “Parasita”, em 2020, também distribuído pela Neon. O paralelo é inevitável: a distribuidora que ajudou a mudar a história com Bong Joon-ho agora parece querer repetir o feito por volume, consistência e estratégia.
No fim, o Oscar 2026 parece menos uma fotografia estática da indústria e mais um relatório de transição. O domínio de “Pecadores” e o peso de seus recordes não se limitam ao entusiasmo por um título: indicam que a Academia está disposta a reconhecer filmes que operam como espetáculo, comentário social e realização técnica ao mesmo tempo — e, principalmente, a premiar equipes criativas diversas sem tratar isso como exceção. A força internacional, por sua vez, deixa claro que a disputa por prestígio hoje acontece em rede: Cannes, Veneza, campanhas europeias, distribuidoras americanas e streaming formam um circuito único, no qual o idioma já não define o teto de um filme.
A cerimônia do 98º Oscar acontece em 15 de março de 2026, com Conan O’Brien como apresentador, e terá um desafio implícito: traduzir essa multiplicidade em narrativa televisiva sem reduzir conquistas a estatísticas. Porque, por trás dos números, o que se desenha é uma mudança mais profunda — um Oscar menos centrado em Hollywood como território e mais interessado em Hollywood como ideia: um centro de validação que, aos poucos, aprende a reconhecer que o cinema contemporâneo é global, híbrido e, cada vez mais, impossível de caber em uma única tradição.