Reinaldo Glioche
A CCXP 2025 terminou dando sinais incontestáveis de desgaste. O evento, que já levou ao São Paulo Expo astros como Will Smith, Sandra Bullock, Keanu Reeves, Jake Gyllenhaal e Tom Holland, viveu este ano sua edição mais tímida em termos de presença internacional. A feira, outrora celebrada como uma das maiores vitrines globais da cultura pop, sofreu o impacto direto da debandada de estúdios e da redefinição das estratégias de marketing na indústria audiovisual.
A ausência da Netflix — responsável pelos painéis mais aguardados da última década — abriu um buraco difícil de preencher. Universal e Apple seguiram pelo mesmo caminho; a Disney, por sua vez, manteve presença protocolar, limitada a uma gigantesca loja da Pixar. Nesse vácuo, apenas Timothée Chalamet conferiu à CCXP algum brilho hollywoodiano, divulgando “Marty Supreme” ao lado de Josh Safdie. Para uma feira acostumada a anúncios mais impactantes do que a seminal Comic-Con de San Diego, o contraste foi brutal.
Essa retração não é isolada. Estúdios vêm concentrando esforços em eventos proprietários, como o Tudum da Netflix, a D23 da Disney ou ativações temáticas e geolocalizadas, que oferecem “controle narrativo” e custo menor. A CCXP, que por anos surfou a expansão global do streaming, agora sente o efeito reverso, já que essas empresas querem menos circuitos e mais exclusividade.
Com a diminuição de astros internacionais, o Brasil voltou a ocupar o centro do palco. Elencos nacionais, produções locais e marcas domésticas preencheram a programação com entusiasmo . Rodrigo Santoro, Selton Mello, Bruna Marquezine e até Fernanda Montenegro ganharam espaço na feira, mas não se conseguiu disfarçar a vocação de que estavam lá em substituição ao que antes era a espinha dorsal do evento. A Petrobras, por exemplo, montou um estande celebrando filmes brasileiros, enquanto painéis de Prime Video, Paramount+ e Warner Bros. destacaram séries e talentos regionais como forma de manter o engajamento do público.
O resultado foi uma CCXP que, paradoxalmente, reforçou aquilo que sempre esteve na sua base: quadrinistas, ilustradores e o Artists’ Valley. Enquanto filas de até quatro horas tomavam ativações de It ou The Boys, o corredor de artistas independentes voltou a ser o espaço mais vivo e autêntico da feira.
A edição de 2025 revela um ponto de inflexão. Sem a sedução de Hollywood, a CCXP precisa decidir se continuará perseguindo a grandiosidade internacional ou se abraçará, de vez, sua vocação nacional — menos espetacular, mas talvez mais sustentável.
